


 O noivo disse talvez!
   The groom said maybe!
   Sandra Marton
   Casamento do ano 3



    CAPITULO UM

    David Chambers sentou-se em um dos ltimos bancos na pequena igreja em Connecticut e mostrou-se interessado na farsa que se desenrolava no altar.
    Tinha a impresso de no estar desempenhando bem seu papel, mas, enfim, como poderia? 
    Ora, que desatino  cometiam! 
    A noiva deslumbrante, o noivo nervoso. A profuso de flores que fazia a igreja  parecer um funeral, a msica melosa, o pastor despejando todas aquelas baboseiras 
sobre amor, honra e companheirismo... 
    David franziu o cenho e cruzou os braos. Era como se assistisse ao segundo ato de uma comdia previsvel, cujo final, o divrcio, ainda viria a ser encenado. 
    - Dawn e Nicholas, hoje vocs iniciam a maior aventura de suas vidas... - dizia o pastor, a voz desprovida de emoo. 
    Ao lado de David, uma mulher de cabelos pretos alvoroados mantinha uma das mos sobre o brao do marido e com a outra segurava um leno. Chorava baixinho e 
parecia estar muito emocionada. 
    David estreitou o olhar. Outras mulheres soluavam tambm, incluindo a me da noiva, que com certeza devia estar mais imune a esse sentimentalismo passageiro. 
    Qualquer ser humano com mais de trinta anos devia comportar-se de acordo, pensou, especialmente os divorciados, e eles compareciam em grande nmero. Se fossem 
convocados a levantar-se, formariam um grupo consistente. 
    - Nicholas, voc aceita Dawn como sua legtima esposa? - indagou o pastor. 
    A mulher que estava ao lado de David soluou mais forte. 
    Ele lanou-lhe um olhar. As lgrimas rolavam soltas, mas a maquiagem estava intacta. Era espantoso como as mulheres vinham preparadas para esses eventos. A maquiagem 
no borrava,  o leno de renda...  nunca se via uma mulher com leno, exceto em casamentos e funerais. 
    - Na sade e na doena, na riqueza e na pobreza... David remexeu-se no lugar e procurou pensar em outras coisas. Quanto tempo faltava ainda? Passara  semana 
em avies, de Washington a Laramie,  de Laramie a Londres, de Londres a Washington outra vez e, ento,  Hartford. Sentia irritao nos olhos e dor nas pernas, graas 
 hora e meia que suportara  a espera do avio para Connecticut. Alm disso, aquele banco estreito de madeira no ajudava em nada. 
    A igreja fora construda em 1720, informara-lhe  entrada uma senhora de cabelos brancos que parecia ter sado de uma pintura de Norman Rockwell. 
    David, suspeitando que dois sculos e meio de histria traduziam-se naqueles bancos estreitos e muito juntos, esboara um sorriso simptico. 
    -  mesmo? - retrucara. 
    O sorriso no sara  com efeito e a senhora idosa lanara-lhe um olhar avaliador, reparando na altura, no rabo-de-cavalo e nas botas com chapinhas. Finalmente 
encarara-o e confirmara: - Isso mesmo - num tom que deixava claro o que ela achava de um habitante do Oeste invadindo seu canto intocado na Nova Inglaterra. 
    Raios. 
    Talvez ela estivesse com a razo. Talvez no devesse ter comparecido ao casamento. Estava cansado demais, cnico demais, velho demais para fingir que testemunhava 
um milagre do amor quando, na verdade, os dois jovens no altar tinham tanta chance de sucesso quanto um pingim de ir  lua. 
    A noiva ergueu o olhar emocionado ao noivo. O sorriso trmulo, cheio de promessas. Votos... 
    Nesse exato momento, David pensou nas trs maiores mentiras da humanidade. Qualquer um as conhecia. 
    Envio o cheque pelo correio. 
    Claro que vou respeitar voc pela manh. 
    Confie em mim. 
    Em resumo, o casamento era uma piada. 
    Bang! 
    O que foi isso? 
    David endireitou-se e olhou para trs. Algum entrara na igreja e o vento acabara empurrando a porta contra a parede. 
    A mulher permaneceu contra a luz. Os convidados agitaram-se. 
    - Quem ? - indagou a senhora chorosa ao marido. 
    - Por que ela no se senta? Por que algum no vai fechar a porta? 
    David suspirou, levantou-se e foi at o fim do corredor. Seria sua boa ao do dia. 
    Ao chegar, Annie cumprimentara-o com um beijo, sussurrando que escolhera uma amiga muito especial para fazer-lhe companhia na festa. 
    - No  para se divertir por a com ela, David - avisara reprovadora. - Ela se chama Stephanie Willingham e  viva. Seja gentil, ouviu? 
    Bem, por que no? Ele no se entendera bem com a primeira velhinha l fora, mas se redimiria sendo gentil com a viva Willingham, talvez at danasse uma valsa 
com ela e, ento, daria o fora. Poderia ligar para Jssica ou Helena antes de voltar para a capital. Por outro lado, poderia voltar logo para casa. Tinha vrios 
apontamentos para ler at o dia seguinte. 
    A mulher que causara toda a comoo expressou agradecimento. J a vira uma ou duas vezes. Era a tia da noiva. Sendo modelo, devia estar habituada a entradas 
teatrais. 
    David fechou a porta, voltou-se... e viu a mulher mais linda do mundo. 
    Ela se acomodara no ltimo banco, como ele; mas do outro lado da igreja. Tinha o rosto triangular, quase felino em sua delicadeza, com mas altas e pronunciadas. 
Os olhos eram castanhos, o nariz, reto e clssico. A boca macia e rubra parecia fonte de infinito prazer. O cabelo, castanho-escuro, estava preso em um coque simples, 
sem adereos. 
    David logo imaginou como seria retirar os grampos que mantinham aquelas mechas sedosas e enterrar as mos entre os fios longos. . 
    A imagem despretensiosa bastou para deix-lo excitado. Naquele instante, a desconhecida o encarou. 
    Com um olhar preciso e frio, parecia avali-lo, despi-lo de seu traje feito sob medida, dissecar-lhe a mente. 
    Bolas, pensou, ser que aquela mulher sabia o que estava acontecendo com ele? Impossvel. Seu corpo se comportava como se tivesse vontade prpria, mas no havia 
como ela saber... 
    Mas ela sabia, mesmo que no deixasse de encara -Io com altivez, nada mais explicaria o rubor repentino em seu rosto  bonito, nem a indignao que expressou 
pouco antes de concentrar-se no altar novamente. 
    Por um momento que pareceu uma eternidade, David permaneceu paralisado. No acreditava ter tido uma reao to estpida  simples viso de uma estranha. No 
se lembrava de mulher alguma olhando -o com tanto desdm. 
    O desejo primitivo dava margem ao dio primitivo na mesma proporo. 
    Imaginou-se caminhando para onde a bela mulher estava sentada. Imaginou-se ocupando o lugar vazio a seu lado e dizendo-lhe que estava certa: s olhar para ela 
j o deixava com vontade de leva-Ia para a cama. 
    Mas as regras da sociedade civilizada prevaleceram. Respirou fundo e tratou de prestar ateno ao que se passava no altar, porque era, afinal de contas, um homem 
civilizado. 
    Quando os noivos caminhassem para a sada, j teria esquecido a tal mulher... 
    
    Diante do espelho no banheiro feminino do clube de campo, Stephanie Willingham contemplou o prprio reflexo. 
    No parecia uma mulher que acabara de se fazer de tola. Deveria sentir-se grata ao menos por isso. 
    Respirou fundo e, ento, expirou devagar. 
    Quanto tempo mais at poder retirar-se da festa? 
    Muito tempo, pensou, respondendo  prpria pergunta. Se permanecesse escondida do banheiro e, depois, sasse sem se despedir, chamaria a ateno. As perguntas 
seriam inevitveis e no teria respostas. 
    No teria nenhuma. 
    O modo como aquele homem a olhara na igreja j fora bastante ruim. Aqueles olhos azuis frios, desnudando-a... 
    Stephanie ergueu o queixo. Desprezvel era a nica palavra que se aplicava. 
    Mas sua reao fora ainda pior. Adivinhara o que se passava na mente dele, mas no havia como explicar ou desculpar seu rubor
    S com a lembrana, voltou a ruborizar. 
    O que est acontecendo com voc, Stephanie?  censurou  o reflexo no espelho. 
    O homem era atraente. Bonito, msculo... para quem apreciava o tipo. Meticuloso com a imagem, mas agressivamente masculino, com o cabelo amarrado em rabo-de-cavalo. 
O terno de bom corte valorizava o corpo musculoso. As botas... Botas, minha nossa! 
    Era Clint Eastwood cavalgando por Connecticut, pensou, e teria rido se a ocasio fosse outra. No entanto, era como se algum houvesse acendido uma fogueira em 
seu ser, as chamam ameaando consumi-Ia. 
    Mas era tudo bobagem! 
    No suportava os homens, no queria nunca mais ter nada com nenhum deles. No entendia por que reagira daquela forma, especialmente quando a expresso dele logo 
denunciou o que tinha em mente. 
    Cansao era a resposta, aps o vo noturno de Atlanta. J havia comeado mal a semana, primeiro, discutindo com Clare, depois, comparecendo  audincia com o 
juiz Parker e, finalmente, consultando desanimada  o prprio advogado. E sempre disfarando o pnico, pois isso s daria mais munio a Clare. 
    Stephanie suspirou. Nunca deveria ter se deixado convencer  a comparecer ao casamento. Casamentos no  eram sua matria preferida. No acalentava nenhuma iluso 
sobre essa instituio, nunca acalentara, nem mesmo antes de se casar com Avery, embora desejasse o melhor para Dawn e Nicholas. Com certeza, tentara desculpar-se 
para no vir ao casamento. Assim que o convite chegara, telefonara a Annie, expressara sua alegria pelo enlace, desculpara-se, mas a amiga se antecipara. 
    - No me venha com essas maneirices sulistas! Oh, voc tem de vir, Steffie. Afinal, foi voc quem apresentou Dawn e Nicholas. Vamos ficar todos desolados se 
no vier. 
    Stephanie sorriu, levou a mo ao penteado e ajeitou algumas mechas mais rebeldes. Annie fora generosa, para no dizer exagerada. No apresentara realmente os 
noivos. Voltava de carro de Cape Cod, onde passara uma semana sozinha, longe dos veranistas, caminhando pela praia, pensando na vida, quando um pneu furara bem na 
divisa  entre Connecticut e Massachusetts, em um dia de chuva. 
    Permanecera no acostamento, ensopada e enregelada, sentindo-se miservel, quando Dawn parara o carro oferecendo ajuda.  Nick chegara em seguida em seu prprio 
carro e fizera questo  de se ajoelhar na lama para trocar o pneu furado, visivelmente impressionado com Dawn.  Annie chegou bem na hora em que Nick completava o 
servio. Ela desceu do carro, todos se apresentaram formalmente e comearam a rir no meio da chuva. Annie convidou todos para saborear um chocolate quente em sua 
casa. 
    Stephanie deixou de sorrir. Avery jamais entenderia como uma amizade podia surgir de uma srie de coincidncias, mas ele nunca entendera mesmo nada sobre ela, 
desde o dia em que se casaram at o dia de sua morte... 
    - Sra. Willingham? 
    Stephani piscou e olhou pelo espelho. A noiva, maravilhosa em seu vestido branco de renda e cetim, sorria-lhe da porta. - Dawn... - Stephanie voltou-se e foi 
abra-la. - Parabns, querida. Ou deveria dizer boa sorte? - Sorriu. - Nunca sei o que dizer nessas ocasies. 
    Dawn sorriu e foi at o espelho. 
    - Acho que vou mesmo precisar de sorte. 
    - Voc j tem toda a sorte do mundo - afirmou Stephanie. 
    - Aquele rapaz bonito parece que...  Dawn? Voc est bem? 
    Dawn assentiu. 
    - tima - respondeu,  incerta. - Eu no sei... Esperei tanto por este dia e quando ele finalmente chegou... - Respirou fundo. - Sra. Willingham? 
    - Stephanie, por favor. Ou me sentirei ainda mais velha do que sou. 
    - Stephanie. Sei que no deveria perguntar, mas... mas... Voc se sentiu... bem, um pouco nervosa no dia de seu casamento? 
    Stephanie olhou para a garota - Nervosa? 
    - Sim. Voc sabe. Meio irritadia. 
    - Nervosa - repetiu Stephanie, fixando um sorriso nos lbios.- Bem, eu no... eu no me lembro... 
    - No assustada - explicou Dawn. - No nesse sentido. S... preocupada. 
    - Preocupada - reavaliou Stephanie, esforando-se para manter o sorriso. 
     - . - Dawn umedeceu os lbios. - Preocupada com o fato de talvez no se sentir sempre to feliz, quanto no dia do casamento, sabe? 
    Stephanie recostou-se na pia. -Bem... 
    - Oh, Stephanie, desculpe-me! Que coisa mais idiota para se perguntar... 
    - No. Em absoluto. S estou tentando pensar...  no  que dizer a voc -- protelou Stephanie. 
    No ficara nervosa no lha de seu casamento com Avery, nem mesmo assustada. Apavorada era o termo mais exato,  desesperada e quase histrica de medo... mas,  
claro, nunca poderia dizer isso a essa noiva inocente, nunca poderia dizer isso a ningum. Estava mesmo com os nervos  flor da pele. 
    Stephanie sorriu animada.  
    - Voc entende, foi h muito tempo... Sete anos, sabe? Dawn agarrou-lhe as mos. 
    - Desculpe-me, por favor. Estou to perdida em meus prprios problemas hoje que esqueci de que o sr. Willingham... que ele... que voc ficou viva. No queria 
que se lembrasse de sua perda. 
    - No, realmente, est tudo bem. Eu no... 
    - Sou to idiota! Vou falando sem pensar, quero dizer.  o meu gnio. At Nicky fala isso. s vezes, falo algo sem pensar e acabo colocando a, mim, e a todo 
mundo em situaes embaraosas! Oh, lamento tanto, Stephanie! Pode me perdoar? 
    - No h nada a perdoar - observou Stephanie, gentil, e sorriu para a garota. 
    - Tem certeza? 
    - Absoluta. 
    - No admira estar to triste quando eu cheguei. Deve ter sido terrvel perder o homem que amava. 
    Stephanie hesitou. 
    - No foi fcil - concordou, aps um segundo. 
    - Posso imaginar. Ora, se algo acontecer a Nicky... se algo nos separar... - Os olhos de Dawn ficaram brilhantes. Ela riu, voltou-se para o espelho, tirou uma 
toalha de papel e enxugou as lgrimas. - Olhe para mim! Estou me tornando a pessoa mais piegas do mundo! 
    -  compreensvel - observou Stephanie. - Hoje  um dia muito especial para voc. 
    - Sim. - Dawn soou o nariz. - Sinto-me em uma montanha-russa. Ora em cima, ora embaixo. - Sorriu confiante. Obrigada, Stephanie. 
    - Por qu? 
    - Por ter me ouvido. Suponho que todas as noivas sejam difceis de aturar no dia do casamento. 
    Stephanie deu um sorriso encorajador. - Se tem certeza de que est bem... 
    - Estou tima. 
    - Quer que eu procure a sua me e pea para que venha aqui? 
    - No, no faa isso. Mame j est tendo muito trabalho. Mas v para a festa e divirta-se. J pegou o seu carto de mesa? 
    Stephanie parou junto  porta e balanou a cabea. -No. 
    Dawn sorriu. 
    - Se bem me lembro, mame e eu a colocamos numa mesa de arrasar. 
    Varreu os cartes brancos com o olhar, encontrou um com seu nome e pegou-o. Mesa sete. Seria um bom pressgio? Entrou  no salo esperando que a mesa ficasse 
longe dos msicos, pois no queria ficar com dor de cabea. 
    Stephanie andou por entre as mesas, verificando a numerao. Quatro, Cinco.,. Sim, a mesa sete definitivamente ficava bem longe dos msicos, talvez em respeito 
ao velho "tio" David. No que fosse importante. No danava havia anos e no sentia a menor falta do exerccio. S esperava que o "tio" David no se aborrecesse 
ao perceber que ela era uma pssima companheira de mesa. 
    Mesa sete. L estava, quase rio canto. Alguns convidados j estavam acomodados, dois casais, aparentemente. Somente o "tio" David no chegara ainda. 
    Os casais olharam-na com simpatia quando se aproximou e colocou seu carto  frente de um lugar vago. 
    - Ol! - saudou uma das mulheres sentadas, e olhou por sobre o ombro de Stephanie. - Ol para voc tambm! 
    - Que mundo pequeno... - ironizou lima profunda voz masculina. 
    Arrepiada, Stephanie voltou-se devagar. Era o homem que a perturbara na igreja. Devia ter quase um metro e noventa de altura, um rosto anguloso e olhos muito 
azuis. Clint Eastwood, comparou, afogueada. 
    Ele pousou seu carto diante do lugar  mesa vago a seu lado. Stephanie ergueu o olhar. 
    - Voc  o "tio" David? - indagou, com voz trmula. Lembrou-se do modo como ele a fitara da primeira vez. Haviam desaparecido o olhar ardente e o sorriso insolente... 
Sua expresso era muito fria agora. 
    - Viva Willingham? - Ele sorriu de leve ao puxar a cadeira para Stephanie. - Esta festa promete... 
    
    
    CAPTULO DOIS
    
    
    Stephanie sentou-se. 
    O que mais podia fazer? Todos  mesa os observavam, curiosos. 
    David Chambers sentou~se a seu lado. Suas pernas roaram-se enquanto ele se acomodava. Disfaradamente, movimentou a cadeira a fim de ficar o mais longe possvel 
dele. 
    Ele inclinou-se em sua direo. 
    - Eu no tenho doena transmissvel, sra. Willingham - disse, asperamente. - E no mordo, a menos que seja provocado. 
    Ela sentiu o rosto queimar. Ele falara em tom baixssimo. 
    Os demais  mesa no conseguiram ouvir nada, apesar de se inclinarem para a frente, curiosos. 
    "Diga alguma coisa", ordenou Stephanie a si mesma. Mas no podia. A lngua parecia grudada no cu da boca. 
    Pigarreou, umedeceu os lbios... Felizmente, o som foi ligado e a msica abafou todas as conversas. 
    Os convidados  mesa sete procuraram descontrair-se. 
    - Esses rapazes precisam de um equipamento melhor  comentou o homem de culos. Erguendo-se um pouco, estendeu a mo a David. - Mas essa no  a minha especialidade. 
Oi, prazer em conhec-Ios. Sou Jeff Blum. E esta  minha esposa, Roberta. 
    - Podem me chamar de Bobbi - declarou a morena, batendo os clios para David. 
    O outro casal tambm se apresentou. Pareciam pessoas muito urbanas e tinham nomes que David sempre associara a tipos puritanos. 
    - Hayden Crowder - informou o homem, estendendo a mo fria e sem vida. 
    - E eu sou Honria - apresentou-se a esposa. - E vocs so... 
    - David Chambers - adiantou-se David. 
    Stephanie permanecia em silncio. Ele olhou-a mais brando. 
    Talvez estivesse superestimando a reao dela ao primeiro olhar dele, na igreja. 
    Na verdade, quando analisava melhor, percebia que nada acontecera. Nada de que pudesse se culpar, ou a ela. Um homem olhava para uma mulher e, s vezes, dava-se 
uma reao qumica. Nada mais. Olhando agora para a viva Willingham, no sabia por que seus hormnios haviam lhe escapado ao controle. Ela era bonita, mas havia 
pelo menos uma dzia de mulheres bonitas no salo. Era hora de impor o crebro ao corpo e mostrar civilidade  mesa. 
    - E esta ... - anunciou, agradavelmente. 
    - Stephanie Willingham, sra. Avery Willingham - cortou Stephanie. - E posso assegurar-Ihes que no estou aqui com o sr. Chambers, nem escolhi estar. 
    Bobbi Blum olhou para o marido. Hayden Crowder olhou para a esposa. Os quatro olharam para Stephailie, que tentava no olhar para nenhum deles. 
    Ai! Ai! 
    O que dera nela? Que coisa mais estpida de se dizer, especialmente aps o homem ter demonstrado que possua alguma educao. 
    - No diga - comentou Bobbi Blum, com um sorriso. Recostou-se quando o garom serviu-Ihes taas de champanhe. - Bem, isso , com certeza, muito interessante. 
    Honria Crowder sorriu animada. 
    - Champanhe - identificou. - No  maravilhoso? Eu sempre digo que s se deve servir champanhe em casamentos, no , Hayden? 
    Hayden Crowder engoliu em seco. Stephanie viu seu pomode-ado subir e descer pelo pescoo fino e comprido. 
    - Sempre, querida. 
    - Oh, eu concordo. - Jeff Blum, ansioso para se integrar ao grupo, assentiu vigorosamente. - Tambm digo isso sempre, no , Bobbi? . 
    Bobbi Blum sorriu perplexa para o marido. - Sempre diz o qu, querido? 
    _ Que champanhe ...  o que a sra. Crowder disse que era. - Podem me chamar de Honria - declarou ela. 
    O silncio tomou conta da mesa novamente. 
    Stephanie mantinha os dedos entrelaados no colo. Todos tinham falado alguma coisa na tentativa de aliviar a tenso. Todos menos David Chambers. 
    Stephanie ,sentia o peso do olhar dele. Por que ele no dizia alguma coisa1 Por que ela no dizia alguma coisa? Algo espirituoso, para descontrair. Algo inteligente, 
para transformar a assero infeliz em brincadeira. 
    Quando os msicos comeariam a trabalhar, afinal? 
    Como que atendendo  splica, o trompetista levantou-se e executou uma chamada. 
    - E agora vamos receber Dawn e Nicholas! - anunciou o lder da banda 
    Os Crowder e os Blum olharam para a pista de dana, curiosos. 
    Stephanie respirou aliviada. Talvez a ateno de David Chambers estivesse voltada para os noivos tambm. Pegou sua pequena carteira de seda lils e, cuidadosamente, 
afastou a cadeira. Era a hora perfeita para uma nova retirada estratgica para o banheiro. 
    - J indo sra. Willingham?  
    Stephanie paralisou-se. Ento, com o mximo de dignidade, voltou-se para David Chambers. A expresso dele era educada e corts, a representao da civilidade... 
exceto para quem estivesse prximo o bastante para ver-lhe a sutil ironia no olhar. 
    Impunha-se uma trgua, em respeito aos noivos que entravam. - Sr. Chambers, suponho... que o que disse antes... eu no quis... 
    Ele sorriu friamente e inclinou-se em sua direo, sem deixar 
    de encar-Ia um segundo sequer. 
    - Isso  um pedido de desculpas? 
    - Uma explicao. - Stephanie endireitou-se na cadeira. - Eu fui rude, no pretendia. 
    - Ah. O que pretendia ento?  - Ele ergueu um canto do lbio e achegou-se mais.  
    Ela sentiu o corao disparar. Por um momento, pensou que ele ia beij-Ia. 
    - Eu s quis deixar claro que eu e o senhor no estvamos juntos. 
    - Conseguiu. 
    - Tenho certeza de que Annie tinha a melhor das intenes quando nos colocou na mesma mesa, mas... 
    - Annie? 
    - Annie Cooper. Com certeza, conhece... 
    - Voc estava sentada no lado do noivo na igreja. 
    - Eu conheo os dois, sr. Chambers. 
    - Mas  convidada de Annie. 
    - No vejo por que entrarmos nesses detalhes, senhor... 
    David sentia prazer em atormentar  Stephanie. 
    - Ora, sra. Willingham- provocou, com um sorriso frio. 
    - Por que escolheu sentar-se, no  lado do noivo, afinal? 
    - O que faz para ganhar a vida, sr. Chambers? 
    - No sei o que isso tem a ver com a minha pergunta. 
    - Por que no responde, simplesmente. 
    David franziu o cenho. - Eu sou advogado. 
    - Ah. Bem, suponho que isso explica tudo. 
    - Explica o qu? - questionou David, estreitando o olhar. 
    - Sua tendncia a interrogar pessoas inocentes. 
    - Desculpe-me, sra. Willingham. Eu no queria... 
    - Devo admitir que prefiro isso  sua tendncia a despir mulheres com o olhar. 
    Os msicos executavam canes romnticas contemporneas. As palavras de Stephanie foram abafadas pelos primeiros acordes da segunda msica. 
    Ao mesmo tempo, Honria Ctowder deu um gritinho. Derrubara a champanhe sobre a mesa. - Oh, no, como sou desajeitada!  Bobbi Blum pegou um guardanapo. - Deixe-me 
ajud-Ia... 
    "Salva dos respingos", pensou Stephanie. Sorriu ao ver o garom servir a entrada, coquetel de camaro. A exemplo dos Crowder e dos Blum, levou uma poro  boca, 
como se mastigando e engolindo pudessem evitar que a situao ficasse ainda mais delicada. 
    - Eu no tenho essa tendncia. 
    Stephanie olhou, para David e o sorriso que ele tinha nos lbios deixou-a enregelada at os ossos. 
    - No tem que tendncia? ...indagou Bobbi.  E  todos apuraram os ouvidos, ansiosos.  
    - No tenho a tendncia a despir as mulheres com o olhar. 
    - David lanou um olhar penetrante a Stephanie, que enrubesceu. - No indiscriminadamente, quero dizer. Uso esse recurso apenas com mulheres bonitas que parecem 
estar precisando desesperadamente de... 
    A msica ficou mais alta. 
    Os Crowder e os Blum afastaram as cadeiras e apressaram-se  pista de dana. . 
    Stephanie permaneceu imvel, embora pudesse at sentir o sangue correndo nas veias. Pensou em golpear o homem a seu lado,  mas no seria justo com Annie, Dawn 
e Nicholas. Alm disso, senhoras no tomavam essas atitudes. A mulher que um dia fora com certeza chegaria a esse extremo.  Steffie Horton teria fechado o punho 
e acertado um soco no queixo de David Chambers. 
    Estremeceu. Steffie Horton faria exatamente o que Stephanie Willingham estava fazendo a tarde toda. Teria sido, rude e mal-educada. Teria dito o que tinha na 
cabea sem pensar. Poderia at ter reagido bem ao olhar insinuante do estranho. Era sua natureza, afinal de contas. Avery errara em muitos assuntos, mas no nesse. 
    O que lhe acontecia naquele dia? Estava se comportando mal. Mesmo quando David Chambers erguera a bandeirinha de trgua, desprezara a oportunidade de desanuviar 
o ambiente. 
    Stephanie respirou fundo e olhou para ele. - Sr. Chambers? 
    - Sim? -respondeu David, educadamente. 
    - No - reconsiderou Stephanie, igualmente educada. - Nada. Ele assentiu. 
    - timo. Acho que extrapolei um pouco, mas, com sorte, ns nunca mais teremos o desprazer de nos vermos novamente.   Esboou um sorriso malicioso. - Omito alguma 
coisa? 
    - No, nada. Na verdade, no poderia ter colocado melhor. 
    David pegou o guardanapo e pousou-o no colo. Stephanie fez o mesmo. 
    - Bon apptit, sra. Willingham - desejou David, suave. 
    - Bon apptit, sr. Chambers - respondeu Stephanie, e espetou o garfo em outro camaro. 
    Ergueram-se brindes, o bolo foi cortado. Os Blum e os Crowwder voltavam  mesa s de vez em quando, para reabastecer o estmago. 
    - Ns adoramos danar - comentou Bobbi Blum, saboreando o Boeuf aux Champignons com salada. 
    - Ns tambm - afirmou Hayden Crowder, cmplice da esposa a seu lado. - Ora, nunca ficamos muito tempo sentados, no importa quem esteja  nossa mesa, no , 
querida? 
    - Nunca - confirmou Honria, e levantou-se. - Nunca ficamos sentados, no importa o que acontea. 
    David observou, com um leve sorriso, os dois casais deixarem a mesa. Ento, colocou o prato de lado, recostou-se na cadeira e cruzou os braos. 
    - Bem, eles no vo se esquecer deste casamento to cedo.  
    Stephanie ergueu o olhar.  - No. Suponho que no. 
    Junto  pista de dana, os Blum e os Crowder olhavam para a mesa sete como, se esperassem a chegada da polcia ou dos seguranas a qualquer minuto. 
    David no pde evitar e riu. Stephanie contraiu os lbios. 
    - No  engraado - censurou... mas ento riu tambm. Ele a olhou. Ela estava levemente ruborizada e tinha um brilho novo no olhar. Parecia mais jovem e, de 
repente, percebeu que estivera se enganando. Tratava-se, sem dvida, da mulher mais bonita no salo. Era mais do que bonita. Era maravilhosa. 
    E, durante a ltima hora, ele fora hostil. Raios, devia estar louco! Tudo o que fizera desde que a vira era loucura.  Devia t-Ia cercado, perguntado se poderiam 
ver-se novamente. Devia ter-lhe dito que era a mulher mais bonita que j vira... . 
    Ainda podia fazer tudo aquilo. No era tarde demais. Sim; era a melhor idia que tivera naquele dia. 
    - Sra. Willingham. Stephanie. Sobre o que aconteceu antes... na igreja, quero dizer. 
    - No aconteceu nada - opinou ela. 
    - Por favor, no vamos brincar de gato e rato. Algo aconteceu. Eu olhei para voc, voc olhou para mim... 
    - Sr. Chambers... 
    - David. 
    - Sr. Chambers. - Stephanie cruzou os braos. - Oua, eu sei que isto no  culpa sua. Quero dizer, sei que Annie provavelmente fez este arranjo. 
    - Provavelmente? - Ele riu. - Claro que ela fez este arranjo. Voc no  comprometida, ? 
    Stephanie assentiu. - Eu sou viva. 
    - Ora, bem, eu sou divorciado. Annie viu a lista de convidados, viu o meu nome,  viu o seu e pronto. Est no sangue dela, embora no se saiba por que, considerando 
seu histrico. 
    Stephanie ruborizou. 
    - Eu lhe asseguro, sr. Chambers, no tenho desejo de me casar. Nunca mais. 
    - Um minuto! - David ergueu as mos. - Um passo de cada vez, sra. Willingham... e, antes que algum d um passo, gostaria de assegurar-lhe que prefiro ficar 
danando com a sra. Blum pelas prximas trs semanas a me casar novamente. 
    Stephanie tentou no sorrir. 
    - No h nada de errado com a sra. Blum. 
    - Ela dana esmagando o p do marido, e deve pesar mais do que ns dois juntos - observou David, fazendo-a divertir-se. Focalizou seus lbios. - Tem um lindo 
sorriso, Stephanie. 
    - Sr. Chambers ... 
    - David. Com certeza, j nos insultamos o bastante para usarmos os prenomes. 
    - David, talvez tenhamos comeado com o p esquerdo, mas... 
    - A sra. Blum tambm. 
    Ela sorriu novamente e ele sentiu um aperto no corao. A viva tinha mesmo um belo sorriso. 
    - Vamos esquecer tudo, est bem? - sugeriu Stephanie. 
    - Eu gostaria muito ... ainda mais por ter sido tudo culpa minha. 
    -  muito gentil da sua parte, David, mas... bem, eu fui culpada tambm. Eu... eu reparei no jeito como me olhou na igreja, entende, quando foi fechar a porta 
e eu pensei... - Ela respirou fundo... - O que estou tentando dizer  que eu no queria ser to... to... 
    - Mal-educada? - sugeriu ele, inocente. -  essa a palavra que est procurando? 
    Ela sorriu. 
    - Est forando a sorte - advertiu. - Colocando palavras em minha boca dessa forma. 
    - Ah, e eu achando que a viva Willingham ia pedir desculpas formalmente. A gente tem essa impresso do povo sulista. 
    - Minha educao  impecvel. E como pode ter tanta certeza de que sou do sul? 
    Ele riu. 
    - E como pode ter tanta certeza de que sou do sul? Repetiu David, imitando o sotaque dela. 
    Stephanie tentou no sorrir, mas era impossvel. 
    - Fico contente que se divirta com o meu sotaque, sr. Chambers. 
    - Juro, sra. Willingham, que no estou rindo de voc. Na verdade, gosto do seu jeito.  muito feminino. 
    - Se est esperando que eu diga que gosto do seu sotaque de Montana, sr. Chambers .... 
    - Montana? - David levou a mo ao corao. - Minha nossa, mulher, sabe como atingir um homem. Eu sou de Wyoming. 
    -Oh! 
    - Oh?  tudo o que tem a dizer, depois de me acusar de ser de um Estado onde as vacas esto em uma proporo de trs para um em relao aos habitantes? - Ele 
riu. - Pelo menos, no Wyoming, a proporo  menor. 
    Stephanie riu, divertida . - Minhas desculpas! 
    - Desculpas aceitas. E, a propsito, eu no tenho sotaque. 
    Ela sorriu abertamente. Ele tinha sotaque, sim, e sabia muito bem disso. Sua voz grave e rouca trazia  lembrana imagens de montanhas e espaos abertos, de 
um lugar onde o cu noturno apresentava estrelas brilhantes e em que as campinas verdes estendiam-se at o horizonte... 
    - Peguei voc! - comemorou ele. Stephanie piscou. 
    - O qu? 
    - Voc sorriu - acusou David, sorrindo tambm. - Sorriu de verdade. E eu concordo. 
    - Concorda com o qu?  indagou Stephanie, totalmente confusa. 
    - Que comeamos mal. 
    Ela refletiu. Parecia confivel, aquele amigo de Annie. No havia como negar sua boa aparncia e senso de humor. No que estivesse interessada nele.         Mesmo 
assim, no havia motivo para no ser educada. Agradvel, at. Seria apenas um dia em sua vida. Uma tarde. E o que ele lhe fizera? Apenas olhara para ela, mais nada. 
Estava acostumada a ser olhada,  embora no gostasse disso. 
    Os homens sempre olhavam para ela, mesmo antes de Avery... Alm disso, ela no era inocente. Por um segundo, olhara para David e sentira... sentira... 
    - Stephanie? 
    Ela levantou o rosto. David observava-a, o olhar obscuro e intenso. 
    - Que tal recomearmos do zero? 
    Estendeu-lhe a mo. Stephanie hesitou. Ento, corts, ergueu a mo e selou o entendimento. 
    - Assim  que se faz - comentou ele, suave. 
    David apertou os dedos em torno dos dela. Sua mo era quente, forte e cheia de calos, o que a surpreendeu. Apesar do visual, tudo nele inspirava riqueza material 
e poder. Homens como ele no  trabalhavam com as prprias mos. 
    Ele inclinou a cabea em sua direo. Ela sabia que devia recuar, mas no conseguiu. 
    - Voc  uma mulher muito bonita, Stephanie. 
    - Sr. Chambers ... 
    - Pensei que tivssemos avanado para David. 
    - David. - Stephanie umedeceu os lbios. Percebeu que ele acompanhara o movimento de sua lngua. - David, acho timo fazermos as pazes, mas ... 
    - Devamos ser honestos tambm. 
    - Eu estou sendo honesta. No quero ... 
    - Sim. Voc quer. - A voz dele saiu rouca, e ela sentiu uma chama em seu ser tomar corpo. 
    - Ns dois queremos. 
    - No! 
    David sentiu a tenso atravs da mo delicada. "No seja idiota", censurou-se. Haveria muito tempo. Quanto mais tempo at a primeira relao completa, maior 
o prazer. J vivera o suficiente para saber disso. 
    Mas no conseguia diminuir o ritmo. No com aquela mulher. Queria-a naquele exato momento. Logo. Queria te-Ia sob seu corpo, nua, ardente sob seu toque, durante 
sua. penetrao. 
    - Venha comigo - convidou, apressado. -Meu carro est a fora. Vamos procurar um hotel... 
    Stephanie arregalou os olhos. 
    - Seu monstro! - Desvencilhou a mo. - Esses ltimos minutos eram para isso? 
    - No - negou ele, mais para si mesmo do que para ela. Sentia-se  beira de um precipcio, esperando que a mnima brisa o empurrasse para o vazio. J conhecera 
outras mulheres antes, desejara-as, mas no daquela forma. No com a necessidade que suplantava qualquer outra considerao. 
    - Stephanie... 
    - No faa assim! - Ela afastou a cadeira. Estava muito ruborizada. Olhou para ele, os lbios trmulos. - Perdeu seu tempo, sr. Chambers. J conheo esse jogo. 
    - Isto no  nenhum jogo! Eu vi voc e a desejei. E voc me desejou.  por isso que est to zangada, no ? Porque  sentiu o mesmo. S est com medo de admitir. 
    - No estou com medo de nada, sr. Chambers, ainda mais tratando-se de um homem como voc. 
    Era mentira. Ela estava com medo. Ele via isso em seus olhos, no rubor de suas faces. 
    - Conheo o seu tipo, senhor. V uma mulher como eu e acha que vai poder se dar bem. 
    - O qu? - questionou David, com uma risada incrdula. 
    - E quanto ao que eu desejo ... Est se superestimando. No o quero em minha cama! Por que quereria? Por que uma mulher em s conscincia desejaria ser subjugada 
por um... um... 
    - Ei, pessoal, como esto?
            Stephanie juntou os lbios. Ela e David ergueram os olhares. 
    Annie Cooper estava junto deles, sorrindo. -  Oi, Annie - cumprimentou David. 
    - Detesto interromper - comentou Annie, sorrindo. - Vocs dois pareciam to entrosados na conversa... 
    Stephanie tentou disfarar o embarao.  - O casamento foi lindo, Annie. Simplesmente inesquecvel. Annie puxou uma cadeira e sentou-se. 
    -Ser que "acertei? - provocou. 
    Stephanie piscou. 
    - Como? 
    - Sobre vocs dois. - Annie sorriu. - Dawn e eu estvamos planejando as mesas quando Dawn disse para mim: "Me, com exceo de Nicky, o homem mais bonito da 
festa vai ser o tio David". E eu disse a ela: "Bem, exceto por voc, minha filha maravilhosa, a mulher mais bonita da festa vai ser o seu cupido, Stephanie". 
    David afrouxou o colarinho, sufocado. - Annie, oua ... 
    - Ento, eu e minha filho ta pensamos e achamos melhor colocar vocs na mesma mesa. - Annie sorriu. - Engenhoso, eu diria, no? 
    - No - protestou Stephanie. - Quero dizer, tenho certeza de que pensou que seria, Annie, mas ... 
    Annie riu. 
    - Relaxem, vocs dois. No estamos esperando nenhum anncio oficial. No hoje, mas... Cus, Stef, como est corada! E David... se um olhar matasse, eu j estaria 
aqui estendida. - Franziu o cenho. - No me diga que metemos os ps pelas mos! Vocs no esto se divertindo? Vocs no combinaram? 
    - Estamos nos divertindo demais - apressou-se Stephanie, gentil. - No estamos ... David? . . 
    David esboou um sorriso e afastou a cadeira. 
    - Claro! - confirmou. - Podem me dar licena por um minuto? Vou pegar uma bebida. Annie? Stephanie? Querem que eu traga alguma coisa? 
    - Nada para mim, obrigada - informou Annie. - J tomei uma champanhe. 
    "Biltre", pensou Stephanie. 
    - Vinho branco - pediu, a fim de no decepcionar a amiga e anfitri da festa. 
    David assentiu. - Volto j. 
    Devia passar direto pelo bar, sair pela porta, pegar o carro, dirigir at o aeroporto, pegar um vo para Washington... 
    David ergueu o cenho e sorriu. - Chase? - chamou. 
    - David! - Chase estendeu a mo, mudou de idia e colocou-a no ombro do advogado. - O que anda fazendo? 
    Chambers sorriu, deu um abrao em Chase e recuou para avali-Io. 
    - Estou timo. E voc? Est bem? 
    Chase pegou a bebida e tomou metade de uma s vez. - Nunca estive melhor. O que vai querer? 
    Chambers olhou para o garom. 
    - Usque com gelo. E um copo de vinho branco, por favor. 
    - No me diga - deduziu Chase, erguendo o canto do lbio. - Est com uma moa. Acho que a onda do amor pegou voc tambm. 
    O garom pousou a taa de vinho  frente de David, que pegou a bebida. Voltou-se e olhou pelo salo. 
    Chase acompanhou seu olhar at avistar, em uma das mesas, uma morena linda, distrada, sentada sozinha, em atitude apropriada. 
    David sentiu um msculo do maxilar se agitar. Tomou outro gole do usque. 
    -Infelizmente, h mais um aspecto a considerar. E  isso exatamente que deixa pobres coitados como eu e voc em maus lenis. 
    - Pobres coitados, isso mesmo - concordou Chase, e ergueu o copo. - Bem, voc e eu entendemos. Durma com elas e as esquea em seguida, eu diria. 
    David riu e brindou com Chase. - Vou beber a isso. 
    - A qu? O que os rapazes esto tramando aqui sozinhos? 
    Os dois homens se voltaram. Dawn, radiante em renda branca e com Nick a seu lado, estava vindo na direo deles. 
    - Papai - saudou ela, beijando-Ihe o rosto: - Sr. Chambers. Estou to contente por ter vindo. 
    - Eu tambm. - David estendeu a mo para o noivo. - Voc  um homem de sorte, filho. Tome conta dela. 
    Nick assentiu enquanto cumprimentavam-se. - Pretendo, senhor. 
    Dawn beijou Chase novamente. 
    - Circulando, papai.  uma ordem. 
    Chase ergueu o copo. Os noivos se afastaram e ele suspirou. -  a nica coisa boa do casamento. Um filho para chamar de seu. 
    David assentiu. 
    - Concordo. Sempre desejei... - Encolheu os ombros e ento pegou o copo e a taa de vinho. - Ei, Cooper, se a gente fica tempo demais encostado no balco, acaba 
sentimental. Algum j lhe disse isso? 
    - J - afirmou Chase. - O meu advogado, h cinco anos, quando fomos relaxar aps o processo de divrcio. 
    Os homens sorriram e, ento, David Chambers bateu de leve no ombro de Chase. 
    - Aceite o conselho de Dawn. Circule. H muitas mulheres bonitas e solteiras por aqui, caso no tenha notado. 
    - Para um advogado, s vezes voc aparece com sugestes muito boas. Que tal a mrena  sua mesa?  uma possibilidade? 
    David estreitou o olhar. 
    - , no momento. 
    - Jura? 
    - Juro - confirmou o advogado. Estava sorrindo, mas havia uma expresso no olhar que Chase reconhecia. 
    - Voc no tem jeito! Bem, no se prenda por mim. O que foi que minha filha disse? Circulando.  isso. Vou circular e ver o que est disponvel. 
    Os homens se despediram. Chase foi para um lado, David, para o outro. Como a pista de dana estava cheia, agora, os msicos decidiram executar sucessos da dcada 
de sessenta e todos ficaram ainda mais animados. 
    David abriu caminho por entre os casais, olhando fixo para  Stephanie. Viu-a voltar-se e v-Io a distncia. Imediatamente, estabeleceu-se uma corrente entre 
eles. 
    - Opa! - Uma mulher segurou-se nele. - Desculpe-me... David assentiu, impaciente. A msica cessou. Os casais aplaudiram e a multido se dispersou. 
    A mesa sete estava bem  frente. Os Blum e os Crowder retornavam. 
    Mas Stephanie Willingham partira. 
    
    
    CAPTULO TRS
    
    
    S existia uma coisa pior do que partir de Washington numa sexta-feira: voltar na segunda-feira. 
    Todos os polticos e lobistas que ganhavam a vida no campos da burocracia voltavam para casa nos finais de semana. Pelo menos, parecia. De qualquer forma, se 
as sextas-feiras eram um pesadelo de estradas congestionadas, aeroportos cheios e vos lotados, as segundas-feiras eram isso e algo mais. 
    David fizera planos cuidadosos para evitar o inferno da segunda-feira. Pedira  secretria que o colocasse num vo no domingo  noite, saindo de Hartford. Atrasado, 
calculou quanto tempo levaria para retirar-se educadamente da recepo do casamento e instruiu a secretria a lhe fazer uma reserva no vo partindo de Boston, aonde 
levaria no mximo uma hora e meia para chegar de carro. 
    Um plano simples, imaginara. 
    Mas nada seria simples naquele domingo. 
    No meio da tarde de domingo, tendo partido de Stratham horas antes do planejado, David j acelerava seu carro alugado pela estrada. Estava de pssimo humor. 
    E agora? Teria de esperar algumas antes que seu vo partisse de Boston e no queria ficar no aeroporto. 
    Podia alterar o plano e tomar em Hartfor o vo que descartara por achar que sairia cedo demais. Sim. Iria ao aeroporto de Bradley e trocaria o bilhete por um 
naquele vo.  
    Talvez devesse telefonar para verificar se havia vagas. No. Para qu? Bradley era um aeroporto pequeno. No suportava muito movimento. Por que estaria com os 
vos lotados num domingo  tarde? 
    David fez uma curva fechada para a direita. Para que demorar-se naquela parte remota do mundo por mais tempo?  - Por nada - resmungou. 
    Olhou para o velocmetro. Estava a mais de cem quilmetros por hora. Qual era o limite em Connecticut? Em casa, em sua casa de verdade, no Wyoming, as pessoas 
dirigiam com lgica, ou seja, avaliavam-se as, condies da estrada, o volume do trnsito e, ento, o cu era o limite. 
    Mas no ali. 
    - Raios - resmungou, mantendo a velocidade em cem quilmetros por hora. 
    Fizera o que esperavam dele, embora tivesse sado da recepo cedo. Brindara aos noivos, cumprimentara Annie e tomara uma bebida com Chase.         Aquilo era 
suficiente. Se as outras pessoas queriam ficar por ali, danando, comendo e fingindo estar se divertindo, era problema delas. 
    O ponteiro do velocmetro marcava cento e dez quilmetros por hora. 
    - J saindo? - indagara Bobbi Blum. - Por favor, no diga que vai l fora fumar um cigarrinho... 
    Talvez tivesse sido o jeito como perguntara sobre Stephanie. - Eu a vi! 
    Antes da afirmativa estridente de Honria, percebeu que agia como um homem' sem cartas de valor em uma mesa de pquer. 
    E por qu? David contraiu os lbios e acelerou. 
    No era culpa de Honria, nem de ningum, que ele tivesse deixado Stephanie Willingham estragar seu humor e depois sumir. - Pacincia, Chambers! - resmungou, 
consigo mesmo. 
    A quem estava tentando enganar? Algum era culpado, sim. 
    Ele. Ele avanara sobre Stephanie como um mssil e aquele no era seu estilo. Era um homem sofisticado, com uma ttica sofisticada. Um sorriso, um telefonema. 
Flores,chocolates ... no era do tipo que abordava mulheres com a sutileza de uma betoneira. 
    Nem podia censur-Ia por ir embora sem se despedir. Nem se importava. Bem, sim, importava-se por ter feito papel de tolo, mas, com exceo disso, qual era o 
problema? 
    David afrouxou a mo no volante e aliviou o p do acelerador. 
    A viva Willingham era mesmo muito bonita, bem como um enigma. Apostava como sob aquela camada de gelo havia um vulco em atividade. 
    Bem, que alguma outra pobre alma descobrisse. 
    Preferia mulheres mais suaves. Femininas. Independentes, sim, mas no a ponto de tornar cada encontro um desafio para o homem. Para completar, a moa no significava 
nada para ele. Dali a duas ou trs horas, provavelmente j no conseguiria lembrar-se dela com nitidez. De seus olhos castanho-escuros. De sua boca carnuda. De seus 
cabelos sedosos e corpo escultural, mesmo escondida naquele conjunto lils de corte austero. 
    Se algum lhe pedisse que descrevesse a roupa de Stephanie, no conseguiria. 
    Mentira. Saberia dizer muito bem. Acelerou o carro. Seu crebro registrara cada detalhe, como a blusa justa junto aos seios, o comprimento da saia, a cor das 
meias. 
    David ouviu uma sirene. Olhou para o velocmetro, resmungou e parou no acostamento. Pelo espelho retrovisor, via as luzes vermelhas do carro de polcia. 
    David desligou o carro e olhou pelo espelho novamente. O policial que se aproximava era grande, como o dos filmes. Suspirou, baixou o vidro e, sem dizer nada, 
entregou a carteira de habilitao.  
    O policial verificou o documento e encarou-o severo. - Faz idia da velocidade em que estava, amigo? David agarrou o volante e soltou um suspiro. 
    - Acima do permitido. 
    - Precisamente. 
    - Eu sei. 
    -  s? No vai dar uma boa desculpa? 
    - Eu ... eu estava pensando numa mulher que conheci hoje. 
    Seguiu-se um silncio e, ento, o policial suspirou. 
    - Oua. Esquea a moa, seja ela quem for. As mulheres s do dor de cabea e preocupao.  David olhou para o policial. 
    - E como! 
    - Dirija com cuidado, camarada. No vou passar o sermo completo. 
    David sorriu. - Obrigado. 
    Era uma guerra. Homens contra mulheres. Ora, por que restringir? Era macho contra fmea. Nenhuma espcie estava a salvo. Um lado brincava e o outro ia  loucura. 
    David entrou a passos largos no terminal do aeroporto. 
    O incidente com o policia fora como um balde de gua fria. Finalmente, conseguira refletir sobre o que acontecera no casamento. 
    Stephanie  Willingham era ardilosa. O problema no estava em ele ter ido com muita sede ao pote, e sim que ela lhe preparara uma armadilha to logo trocaram 
o primeiro olhar, na igreja. Ele cometera o equvoco de pensar com outra coisa que no o crebro e... cara como um pato! 
    Por outro lado... David franziu o cenho ao tomar lugar na longa fila para compra de passagens. Por outro lado, jamais deparara com os estratagemas femininos 
que ela usava. 
    Algumas mulheres entravam logo em ao. Levavam a igualldade a srio. Apresentavam-se de maneira sensual e, ento, faziam algumas perguntas, estado civil; envolvimento 
... Ento, se voc se encaixasse no perfil requerido, elas deixavam bem claro que estavam interessadas. 
    Gostava de mulheres que agiam assim, admirava-as por serem diretas, embora, no fundo do corao, ainda gostasse das coisas  moda antiga. Havia um certo prazer 
na conquista. A mulher que se fazia de difcil valorizava os ardis masculinos e proporcionava mais prazer na rendio. 
    Mas Stephanie Willingham exagerara. 
    Ela no se fizera de difcil apenas. Ela bancara a impossvel. A fila avanou e David deu alguns passos. 
    Talvez ele no fosse o tipo de Stephanie. Talvez ela no tivesse se sentido atrada por ele. 
    No. Sem falsa modstia e com grande dose de honestidade, sabia que, desde adolescente, nunca tivera dificuldade em chamar a ateno das mulheres .. 
    David franziu o cenho. Talvez ainda estivesse apaixonada pelo finado marido. 
    - Bolas! 
    A senhora idosa a sua frente voltou-se e encarou-o de olhos arregalados. 
    - Perdo - murmurou David. - Eu ... no esperava uma fila to longa ... 
    - Nunca espere nada - ensinou a velhinha. - Meu Earl sempre dizia isso. Se voc no espera nada, no pode se decepcionar. 
    "Filosofia em uma fila em Connecticut?" David quase sorriu. 
    Por outro lado, era um bom conselho. Se preciso, levaria  risca o ensinamento contido nas palavras da velhinha. Mas no seria preciso, pois nunca mais veria 
Stephanie Willingham. Por que ficava se esquecendo desse detalhe? 
    Fim do problema. Fim da histria. A fila avanou. Quando chegou sua vez, David j estava sorrindo. 
    Stephanie entrou no carro alugado, trancou a porta e ligou o motor. Verificou o trnsito nas duas direes e saiu da vaga de estacionamento. 
    Sentia-se mal por sair daquele jeito, sem se despedir de Annie. Mas a amiga questionaria a partida precipitada e no tinha uma boa desculpa para oferecer-lhe. 
    Estou indo embora porque tem um homem aqui que est me  assediando. 
    Ah, sim. Aquilo seria o mximo, considerando que Annie planejara aquele encontro. 
    Stephanie franziu o cenho ao se aproximar da rampa que levava  estrada. Diminuiu a marcha, verificou  direita,  esquerda e acelerou com cuidado. 
    Se Annie soubesse. Se ela desconfiasse do que tinha acontecido o jeito como David Chambers a olhara na igreja, como se quisesse... 
    Ele at expusera suas intenes verbalmente! ah, se Annie soubesse que ele propusera lev-Ia ao hotel mais prximo e o esforo que lhe exigiu recusar! 
    Stephanie sentiu o corao falhar uma batida - Como ele se atrevia? - resmungou. 
    Ela no quisera tal coisa.  Nunca. No com esse... esse vaqueiro convencido e arrogante, nem com nenhum outro homem. Estremeceu. No desde que Avery. No desde 
que o marido tinha... 
    Era a sada para o aeroporto? Teria perdido o acesso? Havia uma placa, mas estava em velocidade alta demais para ler. 
    Estaria acima da velocidade permitida? 
    Franziu o cenho e olhou para o velocmetro. Cem quilmetros por hora. Estava a cem por hora?  O limite de velocidade era noventa, sabia, pois informara-se no 
balco da locadora de veculos. Nunca dirigia acima da velocidade permitida. Nunca. Nem na Gergia, nem nos outros lugares, quando estava em frias. 
    Stephanie aliviou o p no acelerador e o ponteiro do velocmetro caiu para a faixa permitida. No que tivesse tirado muitas frias na vida. Na verdade, houvera 
apenas aquela em Cape Cod. At relutara em ir, pois fora idia do advogado: 
    - Vai precisar se afastar - declarara ele, firmemente, dando a impresso de que estava pensando em seu bem-estar quando, na verdade, s a queria fora do caminho. 
    Mas fora ingnua demais para perceber a artimanha e concordara que uma mudana de ambiente lhe faria bem. 
    Naturalmente, no queria ficar longe de Paul por muito tempo. No que o irmo se importasse. Ele no parecia ter cincia de sua presena ou ausncia. Mas que 
importava? Queria estar a seu lado, sempre. 
    Sempre. 
    S pensar em Paul j era suficiente para apagar de sua mente as atitudes grosseiras de David Chambers. Tinha assuntos muito mais importantes com que se preocupar 
do que sua reao irracional a um homem de sorriso sexy, olhar ferino e palavras sagazes. 
    L! Bem em frente. A indicao para o aeroporto. E, pouco adiante, a rampa de acesso. 
    Stephanie diminuiu a velocidade do carro e acionou a seta. 
    Com cuidado, conduziu o carro at Bradley, chegando bem antes do horrio de seu vo. 
    Com certeza, conseguiria trocar o bilhete pelo de um vo anterior. 
    E depois ... depois, haveria Clare e a disputa pela casa.  Mas que adiantava preocupar-se com antecedncia? 
    Tudo daria certo. Tinha que dar. 
    David sorriu para a atendente no balco e comemorou. - Excelente! - Tirou o carto prata da carteira o que vai ser, senhor? Janela ou corredor? 
    - Corredor. Definitivamente. Mesmo na primeira classe, pois assim tenho mais espao para as pernas. 
    A atendente sorriu e bateu as plpebras. - Aqui est sr. Chambers. Boa viagem. 
    Na outra ponta do aeroporto Stephanie aproximou-se esperanosa do balco de reservas. 
    Segundos depois; estava sria. O nico vo direto para Atlanta era aquele em que j estava agendada. S partiria dali a quatro horas. 
    - Lamento muito, sra. Willingham. A menos ... - A moa digitou rapidamente no terminal. - Vou verificar uma informao ... Sim, tenho uma vaga num vo para Washington, 
onde poder fazer conexo com um vo para Atlanta.  um lugar na janela ... 
    - Est timo! 
    - E  na primeira classe. 
    Stephanie hesitou, pensando nos gastos. Pensou tambm em como Avery riria de sua atitude, mas, afinal, velhos hbitos no mudavam com facilidade. 
    - Sra. Willingham? - A atendente olhou para o relgio do aeroporto. - O avio j vai partir. 
    Stephanie assentiu. - Vou nesse mesmo. 
    O porto de embarque ficava na outra extremidade do aeroporto. No foi fcil para Stephanie, de salto alto, transpor rapidamente a distncia. 
    Felizmente, s tinha uma bolsa para carregar. Mesmo assim, quando chegou ao porto de embarque, todos os passageiros j haviam embarcado e o funcionrio comeava 
a fechar a porta que conduzia  rampa.
    - Espere! - gritou Stephanie. 
    O homem voltou-se e manteve a porta aberta. - Quase perdeu o vo! - comentou. 
    Stephanie correu pela rampa. A comissria de bordo receppcionou-a com um sorriso e pegou seu bilhete. 
    - Assento 3-A.    direita, por aqui, sra. Willingham. - Quando chegaram ao lugar, a moa fez mais uma gentileza: - Posso guardar sua bagagem? 
    Stephanie entregou a sacola de viagem e acomodou-se na poltrona, suspirando aliviada. 
    Fora mesmo muita sorte conseguir aquele vo com conexo. 
    Descalou os sapatos e estendeu as pernas. Quase se esquecera do luxo da primeira classe. O assento era largo e macio e havia mais espao para as pernas. Voltou-se 
para a janela e fechou os olhos. Era exatamente daquilo que estava precisando. Paz. Tranqilidade. A oportunidade de limpar da memria o arrogante, presunoso e 
machista David Chambers ... 
    O bonito, sexy e vital David Chambers. 
    Sentiu algum sentar-se a seu lado e ouviu o barulho do cinto de segurana se travando, mais um suspiro entrecortado, como se o passageiro se assustasse. 
    - Eu no acredito! - grunhiu uma voz masculina. - Deixo o meu lugar por dois minutos e, quando volto, encontro isso? timo. s vezes, o mundo  mesmo muito pequeno, 
mas no posso ter tanto azar num dia s! 
    Stephanie sobressaltou-se. No podia ser ... Mas era. David Chambers estava sentado na vaga do corredor, olhando para ela com uma expresso incrdula que devia 
ser reflexo da dela. 
    - Parem o avio, eu quero descer! - gritou Stephanie, mas era tarde demais. 
    O avio projetava-se para o cu, a caminho de Washington. 
    
    
    CAPTULO QUATRO
    
    
    Algum problema, senhora? 
    David desviou o olhar do rosto ruborizado de Stephanie. A comissria de bordo achegara-se com um sorriso meio preocupado nos lbios. 
    Sim, pensou David, avaliando a expresso da funcionria, voc tem razo: h um problema srio. 
    - Senhora? 
    - No - adiantou-se David. - No h problema algum. Estamos timos. 
    Stephanie olhou para a comissria. A jovem a observava com um misto de pena e preocupao. 
    - Ora, deixe para l .... - resmungou, e voltou-se para a janela novamente. . 
    - Ela vai ficar bem - informou David. 
    - Tem certeza, senhor? Pois, se houver algum problema ... 
    - No haver, certo, querida? 
    No at eu pensar em um modo de dar o troco ... - Querida? - alfinetou David. - Tudo bem? 
    - Tudo - rosnou Stephanie. 
    A comissria deu um sorriso vitorioso. 
    - Obrigada, senhora. Agora, poderia ajustar o cinto? Parece que teremos turbulncia no caminho. 
    - Todos os passageiros ou s eu? - ironizou Stephanie. 
    - Tenho certeza de que esta jovem no quer ficar no meio da nossa pequena discusso, querida. 
    - David inclinou-se em sua direo, o olhar ameaador. - Quer que eu ajuste o cinto para voc? 
    - No, a menos que queira perder as mos - alertou ela, enquanto prendia o cinto. 
    David ergueu o olhar para a comissria. 
    - Obrigado pela ateno. Como est vendo, estamos bem agora, srta .... Edgecomb  identificou, pelo crach. 
    Stephanie observou, aborrecida, que a moa at estremeceu ante a fora sensual do sorriso dele. Oh, se ela soubesse o rato calculista que David Chambers era. 
    - Pois no, senhor - prontificou-se a srta. Edgecomb, derretendo-se. - E se eu puder ajudar ... 
    - Claro, eu avisarei. 
    A moa inclinou-se e sussurrou algo para David.  Stephanie no ouviu, mas a risada de David deixou-a irritada. Voltou-se para ele assim que se viram a ss. 
    - Foi uma cena muito charmosa essa. David afastou a poltrona. 
    - Gostaria de receber os crditos, mas  voc que merece os aplausos. . 
    - Voc a convenceu de que sou desequilibrada! 
    - Desculpe-me, mas voc fez por merecer. 
    - O que ela lhe disse agora? Demonstrou simpatia por seu problema? 
    - Ela disseque seria bom se voc tomasse alguns tranqilizantes antes de embarcar na prxima viagem. 
    - Que atenciosa. 
    - Eu disse que no sabia se voc pretendia voar comigo hoje e que a sua presena foi uma grata surpresa. 
    - Oh, sim, aposto que disse! 
    - O que quer dizer? 
    - Faa-me um favor, sr. Chambers. Nem tente me fazer ele tola. Acha que sou to ingnua a ponto de no perceber que me seguiu? 
    David arregalou os olhos. 
    - Talvez a comissria esteja certa. Talvez voc seja uma desequilibrada mesmo. Ou isso, ou  a pessoa mais presunosa que j encontrei! 
    - No sou desequilibrada, nem presunosa. E no gostei de ser seguida! 
    - Acredita mesmo nisso? 
    - No, claro que no - ironizou ela. - Voc simplesmente apareceu no mesmo aeroporto, na mesma hora, comprou uma passagem no mesmo vo e ... oh, sim, que dose 
extra de coincidncia, acabou sentado bem do meu lado. 
    - Soluou colrica. - Repito, senhor, no sou ingnua, nem tola. 
     David suspirou. Nervosa, ela passava a falar com o sotaque sulista ainda mais pronunciado, alm de trat-Io por "senhor" quando na verdade queria usar algo 
bem menos formal. Bem poderia provoc-Ia comentando outra vez sobre seu sotaque, mas no estava querendo incentivar a conversa. Fora um dia longo, estava cansado, 
no tinha disposio para mais nada. A ltima coisa que queria era entrar no ringue para brigar com Stephanie, no importava quo empolgante a luta prometesse ser. 
    - S a idia de pensar que pde descer to baixo! 
    - Sra. Willingham, sugiro, mais uma vez, que se acalme. 
    - O que fez, senhor? Seguiu-me desde a festa? 
    - Seguir voc? - Ele riu de um jeito que deixou Stephanie desconcertada. - Acho que anda assistindo demais a filmes policiais de segunda categoria. 
    - No assisto a policiais, senhor, ruins ou no. 
    - Oua, sra. Willingham ... 
    - Pare de me chamar assim! 
    David contraiu o lbio e decidiu trocar seu nome, s para provocar. 
    - Est bem, Scarlett. O que quiser. Quer achar que eu a segui? Pode achar. Ache o que voc quiser, desde que mantenha a boca fechada. 
    - Foi obra do destino o fato de estar bem do meu lado?  nisso que quer que eu acredite? 
    - Foi uma brincadeira de muito mau gosto do destino. Stephanie olhou-o com desdm. 
    - Cnico! 
    - Destino bom seria eu estar em qualquer outro lugar, menos aqui. 
    - Eu tambm acho. 
    Ele apertou impaciente o boto que posicionava a poltrona na vertical. Estava vendo que no teria mesmo sossego. O tempo se fechava tanto a seu lado, devido 
quela senhora que obviamente no ia se calar, quanto fora do avio, devido a uma tempestade iminente. 
    - Tente entender de uma vez por todas, Scarlett - grunhiu ele, inclinando-se em sua direo. - Estou to atnito com esse arranjo de lugares quanto voc. E a 
vai uma ,sugesto: mantenha a boca fechada. Assim, nos esquecemos um do outro. Que tal? 
    -  a primeira declarao inteligente que o senhor faz disparou Stephanie, estreitando o olhar. 
    Cruzou os braos e tentou ignor-Io, mas no era fcil. 
    Como podia se esquecer se a cada balano do avio, e os balanos eram freqentes, seus ombros se roavam? O aroma da colnia dele tambm perturbava, num misto 
de asseio, ar livre e floresta de pinheiros. Olhou-o de soslaio. Seu perfil lembrava uma escultura em granito destacando o nariz reto, a boca firme e carnuda, o 
queixo quadrado com uma leve barba por fazer. 
    Cerrou os punhos. Quase podia sentir as pontas speras daquela barba sob suas mos carinhosas... 
    Endireitou-se. 
    - Deve haver outro assento vazio neste avio - declarou, zangada. 
    -No. 
    - No?  No? O que quer dizer com no? 
    - Quero dizer exatamente o que disse. O avio est mais cheio do que lata de sardinha. 
    - Que maravilha. - Stephanie cruzou os braos. 
    - Oua, logo estaremos em Washington. A, nunca mais teremos que nos ver. - Pelo menos isso. 
    - No vou discutir, Scarlett. - David lanou-lhe um olhar entediado. - Francamente, no vejo a hora de me livrar de voc. 
    - Oh, seja franco, senhor - replicou Stephanie, bufando. 
    - Considerando que passou a tarde toda sendo a discrio em pessoa, acho que um pouco de franqueza seria bom. 
    David cerrou os dentes. Que mal fizera para merecer tal castigo? O pior era que aquela mulher continuava a fascin-Io, ainda mais agora, obrigada a manter uma 
postura civilizada, uma vez que estavam confinados num avio. Com os olhos briilhantes e as faces afogueadas, ela ofegava de raiva, os seios arfando de um jeito 
que os homens no podiam ignorar. Ela era inteligente tambm, e estava mais do que disposta a enfrent-Io, apesar da aparncia frgil. 
    Que mulher incrvel! Stephanie Willingham era mesmo fascinante... 
    - Bem? 
    Ele ergueu o olhar. Stephanie encarava-o, desafiadora. Em algum momento, seus cabelos escuros comearam a se soltar do coque. As mechas adornavam-lhe o rosto 
e o pescoo. 
    Podia domestic-Ia, pensou, e sentiu a pulsao se acelerar. - Bem o qu? - indagou, em tom suave.  
    Algo na voz dele, ou nos olhos muito azuis, fez com que Stephanie se arrepiasse. 
    - Nada - respondeu. 
    - Vamos, srta. Scarlett, no me deixe de fora agora. - David sorriu, sedutor. - Voc ia me dizer algo e eu gostaria de saber o que . 
    No diga nada, advertiu-a o bom senso. Ele est lanando uma isca e  perigoso. Est no campo do adversrio aqui... 
    Sentiu um arrepio de prazer. 
    -  s... s que voc  o homem mais arrogante, egosta e mal-educado que j tive o desprazer de... 
    Ela engasgou quando ele agarrou-lhe o pulso. - Eu sou? 
    A voz dele saiu grave e rouca. Stephanie mal podia respirar. 
    Sentia-se confusa com a combinao de gentileza e perigo em David. Deveria enfrent-Io ... ou soltar o cinto apesar da turbulncia e salvar-se? A comissria 
provavelmente chamaria um psiquiatra. 
    No. Porque fugiria? No havia nada a temer. O que poderia acontecer ali, num lugar pblico? 
    Nada. 
    David a olhava ameaador. Quase podia sentir a raiva dele atravs do ar. No, pensou melhor, no era raiva. Era masculinidade. Ele sabia que lidava no com uma 
inimiga, mas com uma mulher. 
    O avio adentrava a tempestade escura. Pelos alto-falantes, o comandante pediu em tom impessoal que todos apertassem os cintos. As luzes de alerta comearam 
a piscar e, pelas janelas, viram-se os primeiros relmpagos. 
    Apesar da tempestade aterradora, Stephanie s conseguia pensar no momento em que vira David pela primeira vez. 
    Ele desafivelou o cinto de segurana, sem deixar de encar-Ia nem por um segundo. Stephanie teve vontade de gritar, mas no conseguiu. 
    - Gosta de joguinhos, Scarlett? - Ele ergueu a mo e passou o polegar pelo lbio inferior dela. -  isso o que fizemos o dia todo, no ? Disputamos um jogo. 
- Concentrou o olhar na boca carnuda, alimentando pensamentos de desejo e paixo, e voltou a encar-Ia. - Chega de jogos, Stephanie - avisou, e beijou-a. 
    Ela no emitiu nenhum som e no se moveu. Um gemido frgil tentou escapar-lhe pela garganta, mas o beijo o sufocou. O homem que a segurava com firmeza enterrou 
a mo em seus cabelos e inclinou-lhe a cabea, forando-a a entreabrir os lbios. 
    No houve tempo para pensar. Tudo o que Stephanie pde fazer foi reagir... e corresponder. Gemendo brandamente, passou os braos ao redor do pescoo de David 
e ofereceu a boca para um beijo mais elaborado. 
    As luzes do avio se apagaram e a escurido os envolveu. 
    Houve um solavanco, como se viajassem de carro numa estrada esburacada. Estavam sozinhos ria escurido do cu. 
    Stephanie no estava com medo. Sentia os braos fortes de David a seu redor, mais a prpria pulsao acelerada. Quando ele introduziu a mo por sob sua jaqueta 
e acariciou-lhe um seio, gemeu de prazer. 
    - Hummm - deleitava-se ele. - Sim, isso mesmo... 
    Ela sentiu uma mordiscada e jogou a cabea para trs, deixando-o ocupar-se de seu pescoo. Ao mesmo tempo, ele levou-lhe a mo para sentir a potncia de seu 
desejo e ela arqueou o corpo. 
    Era errado. Era insano. Sabia muito bem disso. Mas parar o que sentia, o que David despertava nela, era impossvel. Ele estava faminto, e ela tambm. Precisava 
aliviar aquela fome, precisava entregar-se, precisava tocar e ser tocada ... 
    As luzes acenderam-se. O avio sacudiu mais uma vez e, ento, saiu da zona de turbulncia. 
    Era tudo de que Stephanie precisava para voltar  realidade. Com um grito abafado, tentou desvencilhar-se, mas David no permitiu. Ele tomou-lhe o rosto, colou 
os lbios aos dela e exigiu... Apesar das luzes acesas, da voz do comandante assegurando que j estavam voando sem problemas, ela quase entregou-se novamente  paixo, 
ao beijo daquele estranho. 
    - No! - Stephanie golpeou-o no peito com os punhos, interrompendo o contato ntimo. - Pare com isso! - ordenou, a voz trmula. 
    David piscou, como se despertasse de um sonho maravilhoso. Afastando-se, olhou para a mulher ruborizada que conhecera havia poucas horas. Ela estava com os olhos 
arregalados, a boca intumescida e os cabelos totalmente soltos em torno da face. 
    - Voc  desprezvel!- classificou Stephanie, e afastou-se o mximo possvel dele. 
    David franziu o cenho e endireitou-se na poltrona. Desprezvel? Louco seria o termo mais correto. 
    - Sra. Willingham... - tartamudeou. 
    Sra. Willingham? Ele estava mesmo louco, dirigindo-se com tal formalidade a uma mulher com quem quase... E o que pretendia dizer-lhe? Desculpe-me? Ora, nem sequer 
estava arrependido. Alm disso, ela quisera aquele beijo tanto quanto ele. 
    - Senhoras e senhores... - A voz no alto-falante interrompeu seus pensamentos. - O comandante avisa que estamos nos aproximando de Dulles e que deveremos pousar 
em poucos minutos. 
    Os passageiros sorriram, aliviados. David sentia-se aliviado tambm, mas no por terem atravessado inclumes a tempestade. Sobrevivera a um perigo muito maior. 
    J tivera sua cota de mulheres. Alguns diriam que tivera at mais do que uma cota justa. Conhecia muito bem o fogo que podia se deflagrar entre um homem e uma 
mulher. 
    Mas nunca experimentara algo assim antes. Se as luzes no tivessem voltado, se Stephanie no o houvesse impedido, ele a teria tomado ali mesmo, naquele pequeno 
universo incandescente que haviam criado. Teria arrancado a calcinha dela e se perdido no calor de seu corpo, at ... at ... 
    Quase escapara ao controle, e sabia disso. E estava assustado consigo mesmo. 
    A vida estava fora de controle. Cometera um deslize, acreditando-se apaixonado, e confiara numa mulher que no merecia confiana... 
    O avio pousou. Os passageiros comemoraram. David levantou-se, pegou sua bolsa de viagem e tomou o corredor. 
    - Senhor? Sr. Chambers? - A comissria sorriu e lanou um olhar por sobre seu ombro. - Sua esposa... 
    - Ela no  minha esposa - declarou David, feroz. - Ela no  nada minha. 
    Deixou a comissria para trs, deixou tudo e todos para trs. O que quer que acontecera naquele avio estava acabado. E, com certeza, nunca mais pensaria no 
assunto. 
    
    
    CAPTULO CINCO
    
    Havia poucas certezas na vida. 
    Stephanie sabia muito bem disso. Na verdade, havia uma primeira e nica certeza. Todas as outras variavam de sublimes a ridculas. 
    Por exemplo, o casal de pssaros que montava ninho junto  porta dos fundos a cada primavera. 
    - No sei se so os mesmos do ano passado - informara o jardineiro. 
    No tinha importncia. Era uma nova gerao construindo seu lar, sua famlia. 
    Havia outras certezas menos agradveis, a exemplo da maneira como os habitantes de Willingham Corners a olhavam toda vez que ela ia l. Bem, logo, logo, haveria 
mudana naquela atitude. Alguns diriam que a moralidade fInalmente triunfara. 
    Stephanie olhou para a carta sobre a mesa de jantar. Se os moradores de Willingham Corners descobrissem o teor daquele documento... 
    Provavelmente, iriam comemorar. 
    Stephanie Willingham, sra. Avery Willingham, fIcaria sem teto para morar. Perderia tudo. 
    Tudo, incluindo a nica coisa que lhe importava. 
    Deveria saber que Avery no cumpriria a promessa. A palavra dele nunca valera muita coisa. Outra certeza na vida, pensou  Stephanie, e sorriu amargamente, mas 
s identificara essa faceta depois que j haviam selado a barganha. 
    No adiantava saber que os documentos que a irm de Avery apresentara eram forjados. Avery provavelmente s sentira mais prazer em preparar tudo para que sua 
irm Clare fosse sua nica herdeira. Ela, a esposa, ficaria sem nada. 
    Os homens eram mesmo uns monstros. Mentiam para conseguir o que queriam e, ento, redimiam-se com promessas que valiam to pouco quanto seu carter. 
    Stephanie levou a mo  testa. Menos Paul. Paul era diferente e no apenas por ser seu irmo. Paul era gentil e carinhoso. Na infncia, estivera sempre a seu 
lado, quando mais ningum se importava, nem o pai, a quem nunca conhecera, nem a me, que tratara de manter-se o mais distante possvel dos filhos. 
    Nem Avery. Com certeza, nem Avery. 
    Stephanie recostou-se na janela e contemplou a caneca de caf na mo. Avery, com aquela conversa de ser o pai que ela nunca tivera, com seus presentes com a 
cesta de alimentos no dia de Ao de Graas, com as consultas que pagara para Paul, com a srie de livros que ela ansiava por ler mas que no podia comprar. E, ento, 
o maior presente de todos, um que a fizera acreditar que haveria um novo comeo para ela e o irmo ... uma bolsa de estudos de um ano no curso de secretariado da 
srta. Carol. 
    -  demais, sr. Willingham - alegara Stephanie. ~ No posso aceitar. 
    - Claro que pode, querida. Voc vai aprender a datilografar, estenografar, e poder vir trabalhar comigo. 
    Trabalhar para ele, pensou Stephanie, e estremeceu. 
    Oh, como ele a fisgara. Lanara uma isca  qual ela no pudera resistir e a colhera como prmio. 
    Como pudera ser to ingnua? To estpida? To pattica e dolorosamente idiota? 
    No que as respostas importassem agora. O destino interviera tambm. Havia o fato de Paul ter piorado de sade, sem dvida, mas fora ela ,quem fizera o pacto 
com o demnio. 
    No havia em quem jogar a culpa a no ser ela mesma ... Assim como era a nica culpada pelos acontecimentos de duas semanas antes, num domingo festivo que deveria 
ter sido agradvel e tranqilo. 
    Stephanie fechou os olhos ante a lembrana humilhante. Era inconcebvel ter permitido que um estranho qualquer tomasse aquelas liberdades. Nada fazia sentido. 
Sabia como os homens eram e o que queriam. O que sempre quiseram, fossem velhos e gordos, como Avery, ou jovens e atraentes, como David Chambers. 
    Sexo. Era isso o que os homens queriam. E sexo era... era... 
    Stephanie estremeceu, apesar do calor do sol s suas costas. 
    Sexo era suor. Era carcias pouco gentis. Era hlito quente junto ao rosto, lbios midos e um amargor subindo pela garganta... 
    Com David foi diferente. Quando ele a beijou. Quando acariciou seu seio e a fez gemer. Ainda lembrava-se do gosto dele, de como era sentir a boca clida junto 
 sua, insinuando prazeres que ela nunca imaginara... 
    Stephanie sentiu as lgrimas brotarem. Piscou forte e respirou fundo. 
    - Muito bem - animou-se e passou as mos pelo rosto. 
     Aguas passadas. No adiantava lamentar-se, nem comear com elucubraes do tipo "e se?"  O que a me costumava dizer mesmo? - No adianta chorar por leite derramado, 
Steffie. 
    O conselho permanecia. Precisava tocar a vida. Precisava ignorar o conceito que os moradores da cidade tinham de sua pessoa. Precisava superar o que Avery fizera... 
Precisava esquecer as lembranas de seu envolvimento relmpago com David Chambers. No valia a pena ficar pensando nele. Tratava-se de apenas outro membro da irmandade 
baseada no egosmo, nos hormnios, na mentira e na intriga. Felizmente, nunca mais veria o sujeito. 
    Stephanie passou a mo nos olhos e, por fim, pegou a carta dos advogados de Clare. No que precisasse rel-Ia. No fizera outra coisa nos ltimos dez dias. A 
mensagem j estava gravada em seu crebro. 
    Prezada sra. Willingham, esteja ciente de que  desejo de nossa cliente, Clare Willingham, que desocupe a propriedade at sexta-feira, dia treze do corrente. 
    - Um dia bem apropriado, no acha? - alfinetara a cunhada, ao telefonar para lhe dar a notcia em primeira mo. 
    Stephanie sentiu um n na garganta. Engoliu em seco e leu o pargrafo seguinte em voz alta. 
    Fique avisada de que o depsito em sua conta bancria deixar de ser feito na mesma data. 
    Estremeceu quando o significado mais uma vez tornou-se claro. Meses antes, quando Clare comeara a insinuar que seus dias na manso estavam contados, fora consultar-se 
com Amos Turner, um advogado da cidade. - No me importo com a casa - declarara. - S quero o que me  de direito. Avery prometeu depositar um valor especfico em 
minha conta-corrente todos os meses. 
    - Quanto? - perguntara Turner, desagradvel. 
    - Dois mil e quinhentos dlares. O advogado sorriu. 
    - Ora, ora.  uma mesada e tanto. 
    - No,  uma mesada. 
    - No? O que  ento, minha cara? 
    Pagamento. Pagamento por ter vendido a alma ... 
    - No vejo a pertinncia disso, sr. Turner - declarara, friamente. 
    - Deve ser bom poder contar consigo mesma para ganhar essa importncia - comentara o advogado, sarcstico. - Aposto como vale cada dlar ... 
    A julgar por sua impertinncia, pensou Stephanie, o homem seguramente j fora comprado por Clare. O juiz Parker tampouco impusera obstculos aos arranjos dos 
advogados de Clare. 
    Assim, encerrara-se o caso. No tinha direito a nada. Nem  casa, nem ao dinheiro... Ficava sem recursos para pagar o tratamento de Paul. 
    Sentiu um aperto no peito. 
    Devia haver alguma sada. Era a viva de Avery, no era? A viva possua alguns direitos. Com certeza, os Willinghams eram donos da cidade, mas no podiam passar 
por cima das, leis. 
    Stephanie levantou-se. Certa vez, conhecera um advogado num dos jantares que Avery costumava promover. Ele no tinha escritrio na cidade, era de... onde? Washington. 
Era isso. Qual era o nome dele? 
    Hustle? Fussell? 
    Russell. Era isso. Jack Russell. 
    Ele sorrira-lhe durante todo jantar. No da forma como os outros homens costumavam sorrir-lhe.  Mostrara-se gentil, generoso e, pensando bem agora, um pouco 
triste. " 
    - Se esse velho maltratar voc, minha querida, ligue para mim e virei em seu socorro - declarara ele, beijando-a no rosto ao se despedir.  
    Avery tomara como brincadeira e comentara: - No se preocupe. Sei exatamente como lidar com uma moa assim... 
    Stephanie bloqueou as lembranas e correu para a biblioteca, onde Avery mantinha a agenda de telefones. No adiantava pensar no passado. Era o presente que importava 
e, talvez, com sorte, Jack Russell a ajudasse a reverter aquela situao. 
    Folheou a agenda e encontrou o nome e o nmero do telefone de Russell em Washington. 
    - No adianta chorar por leite derramado, Steffie - sussurrou a si mesma. 
    Mas respirou fundo e pegou o telefone. 
    A vida ensinara muitas lies a David. Vinho tinto era melhor do que branco. 
    Porches antigos eram melhores do que os modelos novos. A primavera na capital do pas era gloriosa. 
    Mas no este ano, pensou David, recostado  escrivaninha diante da janela panormica de seu escritrio. O tempo estava ameno. O cu, limpo. As cerejeiras estavam 
no auge, um pouco atrasadas, mas os turistas no se importavam. 
    Ainda assim, seu humor no estava dos melhores. 
    Todos comentavam que ele devia estar com algum problema, incluindo a secretria. Nunca gostara muito da sra. Murchison. Contratara-a num momento de fraqueza, 
quando a compaixo por seu problema de acne e excesso de peso suplantara a lgica. 
    No dia anterior, ele chegara ao limite da pacincia. Faltavam vinte minutos para as cinco horas da tarde quando lhe pedira que refizesse um trabalho, pois havia 
manchas de chocolate no papel. 
    - Mas, sr. Chambers, sabe que horas so? Ele sabia. Sabia que era hora de aquela mulher procurar outro emprego. Era hora de ela comear a aborrecer outra pessoa... 
    David fechou os olhos e grunhiu ao relembrar. 
    - No , chore, sra. Murchison - consolara ele, mas ela s se acalmou ao receber um cheque no valor de trs salrios mensais. 
    Mas a secretria acertara. Ele tinha mesmo um problema e seu nome era Stephanie Willingham. A mulher que no saa de sua cabea noite e dia. No era ridculo? 
Sem dvida, sentira-se atrado por ela. E avanara um pouco o sinal... 
    David grunhiu e largou-se na cadeira. Raios. Comportara-se como um cafajeste e sabia muito bem disso. Beij-Ia daquele jeito no avio. Toc-Ia. Bolas, estiveram 
a ponto de... Quem sabia o que teria acontecido se as luzes no tivessem voltado? 
    E por qu? Porque ela era bonita?  Metade das mulheres do planeta eram, bem como todas as mulheres em seu caderninho preto; mas nunca fizera papel de tolo com 
nenhuma delas. 
    Talvez estivesse precisando de um descanso. Sim, era isso. 
    Washington era uma cidade grande. Adorava seu ritmo, gostava de estar advogando no centro do poder do mundo ocidental, de freqentar as festas e recepes. 
    Doze anos antes, associara-se  Russell, Hussell e Hanley transformando-a na Russell, Russell, Hanley e Chambers. 
    - No h lugar mais lindo do que Washington na primavera - comentara Jack. - Quando no Wyoming ainda h s neve e vento frio. 
    Neve, pensou David, olhando para a janela. Provavelmente. 
    Mesmo assim, cavalgando em suas terras, identificava sinais de renascimento por toda parte. 
    - Bolas! - resmungou David, e virou-se de volta  escrivaninha. 
    Daquele jeito, o trabalho no saa. Abriu a agenda. "Contratar uma secretria" encabeava a lista de compromissos. 
    Soltou um gemido. O que precisava mesmo era de uma boa  dose de realidade. Exerccios fsicos na academia. Um jogo de tnis, talvez, ou um pouco de treino de 
boxe... 
    Ou um final de semana em casa. 
    David levantou-se e foi at a janela. Sim. Isso seria bom. Algumas tardes consertando, cercas e passando arame nos locais que haviam sido atingidos pelo inverno 
rigoroso deveriam bastar para traz-Io de volta  realidade. Essa convico fizera-o voltar toda semana para casa logo que comeara a advogar em Washington. 
    A realidade, sabia instintivamente, sempre estaria no Oeste, no Wyoming. 
    Era lamentvel que sua esposa, ou melhor, sua ex-esposa, pensasse exatamente o oposto. O mundo real, insistira  Krissie, ficava em Georgetown, nas festas e jantares 
nas casas de campo elegantes da Virgnia. 
    Nem sempre fora assim. Logo que se conheceram Krissie jurara gostar das mesmas coisas que ele. Que grande tolo ele fora. As mulheres diziam o que os homens queriam 
ouvir quando estavam a fim de la-Ios. A ex-esposa mentira sobre tudo, sobre o que apreciava e o que a desagradava... 
    Sobre fidelidade. Ele tolerara tudo at que, ao chegar mais cedo em casa, encontrou-a na cama com outro homem. Sua indiferena na ocasio s provara a pouca 
importncia que dava a ela. 
    O divrcio fora rpido e lamentvel. A recuperao, lenta e dolorosa. Mas refizera-se e aprendera a lio. 
    As mulheres no eram confiveis. 
    David suspirou e sentou-se novamente. Procurou a agenda de telefones. Naquelas duas semanas desde o incidente no avio, procurara algumas conhecidas e fizera 
programas  noite. Sempre acabava deixando-as em casa... sem maiores acontecimentos. 
    E encerrava a noite sozinho, em sua prpria cama, sonhando com a mulher que nunca mais veria, que nunca mais queria ver... - Raios - resmungou e quebrou o lpis 
ao meio. 
    - Cuidado, rapaz! Tem andado muito nervoso... 
    David ergueu a cabea. Jack Russell estava junto  porta. - Jack. - David esboou um sorriso. - Bom dia. 
    - Bom dia. Mas devo dizer que as cerejeiras no esto em plena forma este ano. 
    - Nada est como deveria. O que posso fazer por voc? 
    - Bem, para comear, pode me dizer onde esteve ontem  noite? 
    - Onde eu estava... O coquetel de Weller!  Jack, desculpe-me. - Tudo bem. Eu pedi desculpas por voc, disse que estava atolado em trabalho. 
    - Devo-lhe uma. 
    Jack riu. 
    - Voc me deve vrias. J protegi o seu gluteus maximus em vrias ocasies nessas ltimas semanas. 
    - Bem; sabe como . Eu estive... ocupado. 
    - "Preocupado" define melhor. O que est' acontecendo? 
    - Oua, s porque perdi alguns compromissos... 
    - Fale logo, quem  a moa? . 
    - Sabe, no agento mais ser o nico solteiro por aqui... - desconversou David. 
    - A soluo  simples, de acordo com minha Mary. Ela acha que voc precisa de uma esposa. 
    David riu. 
    - Diga a Mary que preciso  de uma secretria. Soube que despedi a sra. Murchison? 
    - Claro. As outras secretrias esto fazendo vaquinha. David suspirou. 
    - Bem, acho que ela vai gostar de flores. Vou contribuir. Jack riu. 
    - O dinheiro  para voc, David. Elas acham que voc merece um prmio por ter tolerado a sra. Murchison por tanto tempo. No desconverse. Por que anda to irritado? 
    - Ora, Jack. Trabalho. Casos complicados. 
    - J sei, no quer me contar mesmo, no ? Alis, falando em trabalho, lembrei-me de um caso aqui. O homem morreu e no deixou nada para a esposa. Tinha todos 
os negcios em sociedade com a irm, que agora, claro, tem o direito sobre tudo. 
    - Ele estava tentando fraudar a viva? Jack balanou a cabea. 
    - O tribunal diz que no. A viva vai ficar sem um tosto. 
    - Ora - lamentou David, imaginando uma senhora de cabelos brancos na rua da amargura. 
    - Ela me ligou h pouco. O falecido era conhecido meu. De uma cidade prxima  minha, Macon. 
    - E? 
    - Ela est sem um tosto, mas no surpresa. Disse que devia ter imaginado que o marido no lhe deixaria nada. 
    David espantou-se. 
    - Parece que no havia amor no relacionamento. 
    - Nenhum. S a vi uma vez, h muito tempo. No me lembro da ocasio, apenas que ela parecia muito triste. 
    - Ela quer que voc a represente? 
    - Bem, ela perguntou se eu poderia analisar a papelada para ver se ela no tem direito nem  mesada que vinha recebendo. No fiz muitas perguntas, pois logo 
vi que havia conflito de interesses. A irm do falecido, Clare, estudou com Mary. Eram da mesma irmandade, voc sabe. Resumindo, eu conheo Clare e no gosto dela. 
Mas isso  um problema meu. 
    - Bem, se quer que eu diga  viva... 
    - Vou contar mais um pouco da histria. Ela tinha dezoito ou dezenove anos quando se casou com Avery, j com quase sessenta e pertencente a uma das famlias 
mais tradicionais da cidade. 
    - Pensei que ela fosse idosa. Ora, ela trocou sexo por dinheiro e poder. Jack, essa  a profisso mais antiga do mundo. 
    - Bem, parece que Avery no tinha a inteno de cuidar da moa indefinidamente. 
    - Ela sabia disso? 
    - Disse que no. Disse que ele prometera manter a mesada mesmo aps a morte. 
    - Sem comentrios. Bem, o que quer que eu faa? No vejo 
    muita chance de apelar ou obter uma reverso. Talvez ela possa reivindicar a propriedade. 
    - Ela diz que no se importa com os bens, somente com a mesada. 
    - De quanto era? 
    - No sei. Como lhe disse, no quis ficar fazendo muitas perguntas. 
    - Bem, seja l qual for a quantia, espero que tenha lhe dito 
    que as chances de conseguir esse beneficio so poucas ou nenhuma. 
    - Eu tentei. Mas ela comeou a chorar... 
    David deu um sorriso torto. 
    - Aposto que sim. 
    - Ento, acabei prometendo que iria conversar com ela. 
    Depois, percebi que no ia dar, uma vez que tenho relaes com a cunhada dela. Ento, estou pedindo-lhe um favor. 
    - Jack, voc no quer... 
    - No  to ruim, David. Amanh  sexta-feira. Voc poder voar at Atlanta pela manh, pegar um txi at a casa dela e estar de volta antes do jantar. 
    David franziu o cenho. 
    - Est se esquecendo de que terei que contar a ela que no tem direito a dinheiro, jias, peles, enfim, nada a que esteja habituada. 
    - Sim. Mas faa de maneira gentil. 
    - Para qu? Para provar que advogados tm corao? 
    - Que atitude fria. 
    - Estou me sentindo frio ultimamente, Jack. E realista. 
    - Oua, sempre estamos fazemos anlises preliminares sem cobrar e  s o que estou pedindo. Uma hora de parecer profissional para uma jovem viva que est precisando. 
Tenho de admitir que lamento por ela, mesmo sabendo que se casou por dinheiro. 
    - Que se vendeu, quer dizer. 
    - Que seja. Mesmo assim, h algo nela. Ela tem esse ar de vulnerabilidade... Oua, sabemos que a garota tem l seus problemas, mas ela cumpriu sua parte no acordo 
at o fim. Ficou com Avery. 
    - Que dedicao. 
    - No seja to cruel. Ela est em situao delicada. No tem nenhuma formao, exceto um curso de secretariado. 
    Jack riu. - A est urna idia. Talvez voc devesse oferecer-lhe um emprego. 
    - Est se esquecendo de uma habilidade, Jack. Aquela que a levou ao casamento. 
    - Ah, sim. - Russell suspirou. -  espantoso o que um homem faz para levar uma mulher para a cama. 
    A imagem de Stephanie Willingham surgiu na mente de David. 
    - Est bem, eu vou falar com ela. 
    - Obrigado, David. 
    - No me agradea.  pelas desculpas que andou inventando para salvar a minha pele. 
    - Otimo. Estou com o endereo e o telefone bem aqui. 
    - E o nome. 
    - Claro. O nome dela  Willingham. 
    David enrijeceu-se, apertando a caneta na mo. - Como? 
    - Willingham. Stephanie Willingham. No sei como se diz 
    hoje em dia, mas no meu tempo descrevia-se uma mulher como ela como "um pedao de mau caminho". 
    David recostou-se, aniquilado. 
    - A expresso continua vlida, Jack. 
    Era loucura ver Stephanie novamente. Ainda mais insano fora no contar a verdade a Jack. E falar de tica... David agarrou o volante do carro esportivo. 
    Optara por dirigir para ter tempo de refletir durante as horas na estrada. 
    Mesmo um aluno calouro de Direito reprovaria sua atitude. 
    Era a pessoa errada para dar conselho jurdico  viva Willingham. 
    No era tarde demais para mudar de idia. Telefonaria a Jack e diria o qu? 
    Al, Jack. Oua, passei uma tarde inteira tentando seduzir a viva e por isso no me qualifico para o caso. 
    Mas no havia caso. Ele era apenas um mensageiro e Stephanie, se ainda nutria alguma esperana de voltar aos tribunais, mudaria de idia assim que ele expusesse 
os fatos. 
    David sorriu e acelerou. 
    
    
    CAPTULO SEIS
    
    O p tomou conta do ar quando Stephanie tirou a mala de uma estante no sto. 
    Aps um espirro, ela limpou o nariz na manga do suter. - Casou-se com um famlia muito tradicional, mas nunca ser parte dela - alfinetara a cunhada Clare, 
no dia de seu casamento. 
    Stephanie sorriu, sombria, ao fechar a porta do sto e descer a escada. 
    - Vou me esforar para me adequar - retrucara, ingenuamente, quando ainda, acreditava nas promessas e na gentileza de Avery. 
    - O seu melhor nunca ser bom o suficiente - respondera Clare. Atnita, Stephanie preparava-se para responder quando Avery puxou-a para um canto. 
    - Lio nmero um: nunca responda  minha irm, entendeu? Oh, sim, entendera. Avery mentira... mas o que podia fazer? 
    Ele era tudo o que restava entre ela e o desespero. 
    Stephanie levou a mala at o quarto. As mentiras, pelo menos, tinham se acabado. No tinha lugar para morar, no tinha dinheiro, as contas da clnica em que 
o irmo estava internado estavam atrasadas, mas ao menos no precisava mais fingir. Nos ltimos, dois anos, j pudera deixar de lado a dissimulao. O estado de 
sade de Avery no permitia que aparecessem em pblico com freqncia. 
    Alis, no tivera muito trabalho. Continuara dormindo no quarto ao lado do dele, como no incio do casamento, atendendo-o quando acordava  noite, ministrando-lhe 
os medicamentos, servindo-lhe as refeies e limpando-o quando se recusava a ser auxiliado pelas enfermeiras. Fizera tudo isso porque, afinal, dera sua palavra. 
    Se Avery ao menos houvesse cumprido a dele... 
    No. No pensaria mais no assunto. No pensaria em mais nada at falar com o scio de Jack Russell. 
    Uma funcionria do escritrio do sr. Russell telefonara avisando que um colega dele estava a caminho para lhe prestar a consultoria. 
    - O sr. Russell no vai vir? - questionara, tentando no demonstrar a decepo. 
    Depois de desligar, Stephanie percebeu que no perguntara o nome da pessoa que viria. No que fosse importante. No estava em posio de pedir nada ao sr. Russell. 
Desde que ele no enviasse o contnuo, j estava satisfeita. Tratava-se de um escritrio de advocacia muito respeitado, conforme Avery comentara certa vez; 
    - O velho Jack  o nico homem em Washington que nunca; consegui comprar. 
    Stephanie soprou uma mecha de cabelo da testa. At onde entendia, no podia haver recomendao melhor. 
    - Muito bem, vamos ver o que ainda  aproveitvel aqui. Abriu a mala e o cheiro de mofo tomou conta do ar. Arrastando-a para perto da janela, debruou-se sobre 
as roupas cuidadosamente dobradas havia sete anos... 
    E gemeu. 
    Traas e ratos haviam feito a festa em meio aos guardados. 
    Havia uma abertura na mala. 
    - Queime esse lixo - dissera Avery, em seu primeiro dia na casa. A idia de se livrar do pouco que restara de sua vida, sua vida real, assombrara-a. Por isso, 
ao invs de obedecer a Avery, guardara a mala no sto. 
    Stephanie sentou-se pesadamente na beirada da cama. Era tolice, mas no queria levar nada que no fosse seu. Considerando que o contedo da mala estava inutilizado, 
restavam a cala jeans, o suter e o par de tnis que estava usando. 
    - E agora? - sussurrou. 
    Era mais tolo ainda ficar ali sentada, perdendo tempo, pensando no leite derramado. 
    - Plano nmero dois Steffi - animou-se. 
    Limpou as mos na cala e abriu as portas do armrio. Roupas de grife pendiam nos cabides. Estendeu a mo, hesitante. 
    - Est sendo idiota - resmungou. - Roupa  roupa, s isso. Exatamente. A verdade fria era que trabalhara muito para ter tudo aquilo. 
    - Isso mesmo - justificou. 
    No levaria muitas, s o suficiente para se apresentar bem at conseguir um emprego, um jeito de se sustentar... 
    Por Paul. 
    Mas como? Como? Ela mesma no precisava de muito dinheiro. Para pagar o tratamento do irmo, porm... 
    Por que perdia tempo numa linha de raciocnio que no levava a nada? Trabalhou rpido, dobrando as peas e colocando-as sobre a cama. Sapatos, roupas ntimas, 
um suter. 
    O som de pneus sobre a via de cascalho chegou pelas janelas abertas. 
    Stephanie olhou para o relgio e franziu o cenho. Quem seria? 
    O enviado do sr. Russell no era esperado seno para bem mais tarde e, com exceo dele, no esperava mais ningum ... 
    Clare. 
    Claro. S podia ser a cunhada para reforar que o prazo para deixar a propriedade esgotava-se. 
    A campainha tocou. Stephanie olhou-se no espelho. Estava lamentvel. Nem um pingo de maquiagem, o cabelo despenteado, o suter sujo, a cala jeans rasgada e 
uma unha quebrada. 
    Pois era exatamente isso o que Clare merecia. Respirou fundo e desceu a escada. 
    Na varanda, com as mos nos bolsos da cala, David assobiava tranqilamente; observando o cenrio. 
    Casa grande e branca, varanda colonial, uma via de acesso to complicada que quase era preciso um mapa. 
    Bonito. Muito bonito, se o ideal de boa vida era o cenrio de E o Vento Levou... Mas no fazia seu gnero e, de algum modo, no achava que combinava com a viva 
Willingham, tampouco. Ora, o que sabia sobre essa mulher cabia em um dedal com lugar de sobra. 
    Tocou na campainha novamente e franziu o cenho. No seria o fim se ela no estivesse? Sabia que estava adiantado, sabia que devia ter telefonando do carro, mas 
no teria podido precisar a hora da chegada
    A quem queria enganar? No telefonara porque sabia o que Stephanie falaria se soubesse que era ele. Talvez at entrasse em contato com Jack para contar os detalhes. 
Todos os detalhes, incluindo os mais embaraosos. Por isso, instrura a secretria a no informar o nome do enviado  sra. Willingham. 
    - Apenas diga-lhe para aguardar a visita de um membro do escritrio de Russell. 
    A funcionria estranhara um pouco a instruo, mas, ao contrrio do que teria feito a sra. Murchison, no questionara. 
    E l estava ele, ansioso... e, graas  hora, inesperado. 
    David saiu da varanda e deu uma boa olhada na casa. Havia janelas abertas no andar de cima. Podia ver as cortinas finas movimentando-se ao sabor da brisa primaveril. 
Ela devia estar em casa. Uma ltima tentativa. De volta  varanda, apertou de novo a campainha e ouviu um som distante l dentro. 
    Bastava. Voltaria para a estrada. Ou para o carro. Telefonaria a Jack e diria tudo o que devia ter dito logo no incio. Que ele era o homem errado para lidar 
com a bela e jovem viva de ar vulnervel e disposio de tigresa... 
    A porta abriu-se. Stephanie Willingham estava diante dele, com as mos nos quadris. 
    - Quer saber de uma coisa, Clare? - dizia ela. - At onde sei, pode pegar essa casa miservel e... 
    Interrompeu-se, o semblante refletindo o choque. No que David notasse muito. Ele mesmo estava bastante chocado. 
    Aquela no era a mulher sofisticada e estonteante com quem vivia sonhando. Stephanie parecia to sofisticada quanto uma  adolescente. E ela estava... no havia 
como descrever... lamentvel. Tinha o rosto meio sujo e sem maquiagem, o cabelo era uma massa de cachos. Seu suter e cala jeans definitivamente j tinham visto 
dias melhores.  
    No obstante, achou-a to bela, to, adorvel, que o choque de rev-Ia deixou-o sem flego. 
    Deixou-o tambm quase sem mo, a qual mantinha perigosamente junto ao batente da porta. 
    - Voc?! -exclamou ela, e quis fechar a porta. 
    Rpido, ele posicionou o ombro no caminho e fez uma careta ao receber o impacto. 
    - Est bem, acalme-se! 
    - Como se atreve? Como se atreve? 
    - Sra, Willingham... Stephanie... 
    - Saia daqui! Est me ouvindo? - vociferou, pontuando cada slaba com um empurro na porta. 
    - Ei... Ei, no faa isso! Vai separar o meu brao do ombro! 
    - E vai ser bem feito, seu... seu... 
    - Oua, sei que no est contente em me ver, mas... 
    - No estou contente? No estou contente? - A voz dela ficou mais aguda. - Saia da minha varanda! Saia da minha propriedade! V... 
    - Calma, mulher, oua-me! 
    - No, sr. Chambersl  o senhor quem vai ouvir. - Ela estreitou o olhar friamente. - Tenho uma espingarda aqui. - Oh, pare de gritar... 
    - Meu falecido marido dizia que uma arma carregada era a melhor amiga de um homem e, creia-me, da mulher tambm. 
    - Oua, h uma explicao perfeitamente lgica para... 
    - Saia j da minha porta e pegue o seu carro ou... vou atirar na sua cabea! 
    Ela teria mesmo uma arma? David no estava vendo nada, mas o que isso provava? No ver uma arma no significava que ela no existia. Tratava-se da lio de sobrevivncia 
urbana nmero um.
    - Sra. Willingham, est reagindo desproporcionalmente, 
    - Mexa-se, sr. Chambers! 
    - Stephanie, por que... 
    - Um... Dois... Trs... 
    - O que est fazendo? 
    - Estou contando. Tem cinco segundos, senhor. Dois, para ser exata, e, se eu no estiver olhando para as suas costas dentro desse tempo, vou atirar. 
    David suspirou. 
    - Jack Russell - declarou. 
    Aproveitando o momento de confuso dela, empurrou a porta e avanou. 
    Stephanie estava um degrau acima. Mas ele tinha mais peso. Altura. Fora. E a certeza de que ela, se realmente tinha uma arma, no hesitaria em  us-Ia. 
    As dobradias rangeram. Stephanie gritou. A porta abriu-se o suficiente para que ele entrasse. Ela gritou novamente quando ele avanou mais e a agarrou. Juntos, 
colidiram contra a parede. 
    O cotovelo de David absorveu o choque. Ele sabia que sentiria dor mais tarde. 
    Agora, estava ciente apenas da presena dela. 
    De Stephanie. De sua maciez, do volume de seus seios, apaarentemente sem suti sob o suter folgado. De seus cabelos sedosos. De seu aroma de mulher, um misto 
de flores e suor... 
    E de seu joelho, que ela preparava para impulsionar contra a parte mais vulnervel do corpo dele. 
    David praguejou e recuou bem a tempo. Ela o atingiu na coxa, mas bastou para ele entendera mensagem. 
    No havia arma, registrara o fato imediatamente, mas isso no significava que ela no estava disposta a matar. 
    - Chega! - avisou ele sombrio quando ela tentou atingi-Io no olho com o polegar e na virilha com o joelho. Agarrou-a pelos pulsos e segurou-os acima de sua cabea 
junto  parede. - Chega, ScarIett! 
    - Eu vou gritar! - ameaou Stephanie, ofegante. - E todos na casa vo vir correndo! A arrumadeira. O mordomo. O motorista. A cozinheira. A governanta... 
    -  engraado nenhum deles ter vindo correndo atender  campainha, nem aparecer quando voc comeou com a gritaria. 
    Ela ruborizou. 
    - Eles, ...eles esto ocupados. 
    - Ocupados. - David sorriu, sedutor. - Claro. Por que no pensei nisso? Nenhum criado bem treinado interromperia o servio para atender  porta, ou aos gritos 
da patroa. 
    - Esto todos aqui, estou avisando. 
    - Claro que esto. 
    - S tenho que cham-Ios... 
    - Chame. 
    - E eles viro correndo. 
    - Estaro abalroando-se no af de socorr-Ia? 
    - Sim. No. Quero dizer... 
    - Eu sei o que quer dizer Scarlett. S no vou acreditar. J contou muita lorota. Primeiro, a arma... 
    - Espingarda - corrigiu Stephanie, com dignidade surpreendente. 
    - E agora, a criadagem em peso. - David riu. - Voc tem uma imaginao e tanto. 
    Ela ruborizou intensamente. 
    - E voc  mesmo impertinente, vindo aqui! 
    -  o que estou tentando dizer, estou aqui por um motivo... e no pelo motivo que acha que estou. 
    Mas ele tambm estava tendo problema em lembrar-se do motivo da visita. O suposto motivo, pois a verdade era que estivera pensando numa maneira de reencontr-Ia 
desde que lhe dera as costas no avio, aps, o pouso, naquele domingo. 
    Podia ver-lhe a pulsao atravs da pele delicada do pescoo. 
    Ela no estava mais com medo dele.   As palavras mgicas, Jack Russell, haviam-na tranqilizado. Ela s estava atenta, e zangada. E maravilhosa. 
    Respirava ofegante e nem o tamanho grande do bluso disfarava o subir e descer dos seios fartos. Ainda mantendo as mos dela presas no alto da cabea, imobilizava-a 
com seu prprio peso... pois era a nica forma de manter seu joelho fora de ao. S ento percebeu que os quadris dela estavam em posio de... 
    Ele se sentiu excitado. Ela arregalou os olhos ao perceber o imediatismo da ereo dele contra seu corpo. 
    Stephanie sentiu a pulsao acelerar. Sabia o que ocorria e estava correspondendo. Ela o queria. Ela queria o que ele, agora sabia, nunca deixara de desejar. 
    Ele passou a mo por seu pescoo e rosto. A pele estava fria. Tateou-Ihe os lbios com o polegar e ela os entreabriu. 
    Ele estava pegando fogo! 
    David sussurrou o nome dela, a voz rouca e grave de desejo. 
    O som pareceu assust-Ia. Ele sentiu que ela se enrijecia. 
    - No - implorou Stephanie. - Por favor, no. 
    Mesmo cego de desejo, David reconheceu o medo no pedido. Ficou atnito. 
    Conhecera muitas mulheres ao longo dos anos. Algumas diziam que o adoravam, a ex-esposa o desprezava, mas nenhuma sentia medo dele. Tratava-se de uma experincia 
nova e ruim. 
    No havia nada pior do que um homem que inspirava medo nas mulheres. 
    E Stephanie no estava apenas com medo. Estava aterrorizada. Ele tomou-lhe os ombros e sentiu-a estremecer. 
    - Oua-me. No vou machuc-Ia. Eu nunca a machucaria... 
    - Solte-me! 
    Ele obedeceu, imediatamente, embora quisesse envolv-Ia nos braos, prometer-lhe que ningum a magoaria, no ennquanto ele estivesse ali ... 
    - Agora, saia da minha casa. - Ela apontou para a porta. 
    Estava trmula, mas a voz saiu firme e clara. 
    - Jack Russell pediu-me para conversar com voc. 
    - Eu no acredito em voc! 
    - Jack me disse que voc telefonou para falar sobre um problema legal. Ele me pediu para vir aqui discutir O assunto com voc. 
    Ela estreitou o olhar. 
    - Por que ele faria isso? E como conhece o sr. Russell? 
    - Ns somos scios no, mesmo escritrio de advocacia. Ele me disse que voc precisava de assistncia jurdica. 
    Ela encarou-o, sem falar nada, e ento riu. 
    - Deixe-me ver se entendi. Voc  o mensageiro dele? David contraiu os lbios. 
    - No sou mensageiro. Jack me pediu para conversar com voc e eu disse que viria, como um favor.  A Jack - acrescentou  com nfase. 
    Estaria ele falando a verdade?, imaginou Stephanie. Provaavelmente. Ele no saberia sobre o telefonema a Russell, de outro modo. No que isso alterasse os fatos. 
Se pudesse optar entre Godzilla e David Chambers, teria escolhido o primeiro, mesmo sem grau em Direito. 
    Stephanie endireitou o corpo e esticou-se em toda a altura, ou seja, um metro e sessenta e trs. 
    - Bem, j fez o seu trabalho. Veio aqui me ver... e agora, pode voltar para casa. - Ergueu o queixo. - Pode dizer ao sr. Russell que fez o que ele lhe pediu 
e que eu o dispensei.
     - No foi nada, Scarlett. Sempre achei que era uma perda de tempo. Eu disse a Jack que voc no tinha nada nas mos. - Obrigada por sua opinio, sr. Chambers. 
E adeus. 
    - Mandarei lembranas suas a Jack. 
    - Faa isso. 
    Ele assentiu, pisou na varanda, avanou para os degraus ... 
    Bolas! Zangado, voltou-se. - Eu estava errado. 
    - Com certeza. 
    -  uma perda. A minha... considerando que j perdi o dia. 
    - Que pena - lamentou ela, docemente. 
    - Sim. Tenho certeza de que est penalizada por eu no estar na fazenda neste exato momento. 
    
    - Minha nossa - ronronou ela. - No sabia que havia fazendas na capital do pas. - E ela riu. David teve vontade de ir at ela e sacudi-la at ela parar de rir 
... 
    Ou agarr-Ia e beij-Ia at que se derretesse em seus braos. - Parece que tem uma escolha aqui - declarou David, bruscamente. - Pode se sentir contente por 
ter estragado o meu fim de semana, ou descer do pedestal e me contar a sua' histria. - Afastou o palet e levou as mos aos quadris. A escolha  sua. Embora, francamente, 
eu no ligue a mnima. 
    Ele no dava a mnima. Stephanie podia ver, pela atitude. E pela expresso no rosto. O belo rosto que povoava seus sonhos e seus pensamentos, noite e dia. 
    Tudo nele era exatamente como se lembrava. O cabelo escuro preso em um rabo-de-cavalo; a pele levemente bronzeada, paarecendo muito saudvel. As roupas de corte 
elegante. As botas, longe de impecveis, pareciam usadas e no de enfeite. Podia imaginar a fazenda, o ptio bem cuidado, empregados eficazes, uma sala com caveiras 
de animais na qual ele se fazia de heri do Oeste, quando, na verdade, outros savam a camisa... 
    - A escolha  sua. Stephanie piscou. 
    - Eu no .. o que disse? 
    - Eu disse... - Ele olhou para o relgio de propsito. - Pense bem. Se vou voltar a Washington, preciso partir agora mesmo. - Sorriu ironicamente. - Talvez chegue 
a tempo de fazer algo agradvel com a minha noite de sexta-feira. 
    Em outras palavras, procuraria alguma mulher, pensou Stephanie. Ele a levaria a algum lugar charmoso para jantar, iriam a seu apartamento e... 
    No era da sua conta. Absolutamente. - Bem? - exigiu ele. - O que vai ser? 
    No que precisasse perguntar. David quase sorriu. O semblante de Stephanie era quase um livro aberto. Queria mannd-Io embora. Ou melhor, gostaria de empurr-Io 
escada abaixo, para fora de sua varanda. 
    Mas tambm queria que ele ficasse. Isso no o surpreendia. 
    Ela telefonara a Jack em busca de ajuda. Recusar essa ajuda agora seria estupidez e a viva Willingham no era idiota. 
    Ele afastou a manga, olhou novamente para o relgio e aquilo foi suficiente. 
    - Tem razo - concordou ela, rpido, como se no tivesse coragem para falar normalmente. - Suponho que no tenho escolha. 
    - Sempre h uma escolha, Scarlett. Acho que  adulta o suficiente para saber disso. 
    Ela sorriu amargamente ante a leve ironia. Como ele era presunoso. Como era seguro de si mesmo. Como era total, completa e egoisticamente masculino. 
    Pensou em dizer-lhe isso, acrescentando que s acreditava realmente que sempre havia escolha quem nascera em bero de ouro~ 
    Stephanie voltou-se para entrar na casa. 
    - Muito bem, sr. Chambers. Eu lhe darei dez minutos. 
    -No. 
    Incrdula, ela voltou-se. 
    - No? Mas acaba de dizer... 
    - Voc no vai me dar nada - corrigiu David. - Vamos deixar tudo claro desde o comeo. Sou eu que estou dando algo a voc. E se no entender isso, vou embora. 
    Ela ficou muito vermelha. 
    - Eu no gosto do senhor, sr. Chambers. Vamos deixar isso bem claro. 
    Ele riu. 
    - Ora, Scarlett, querida, voc acaba de despedaar o meu corao. 
    - Aceito como um elogio, embora ambos saibamos que o senhor no tem corao. - Stephanie voltou-se para a porta. - Podemos conversar aqui na sala. 
    David hesitou. 
    - Vai me acompanhar, senhor? Ou mudou de idia? Mudei, aconselhou uma voz interior  dele a dizer. No seja idiota, Chambers.  
    - No seja boba - declarou, com um sorriso forado. - No perderia a nossa conversa por nada. 
    Ele passou por ela e entrou na sala. 
    
    
    CAPTULO SETE
    
    A sala combinava com a casa, ou melhor, combinava com a expectativa de David. 
    Grande e espaosa, era uma relquia de uma era passada. 
    E fora decorada para impressionar, com sofs de veludo preto e cadeiras delicadas. 
    - Sente-se, sr. Chambers. - Stephanie abriu a primeira gaveta de uma escrivaninha de mogno. - Aquela namoradeira verde provavelmente  o lugar mais confortvel 
e pode acender o abajur. 
    David olhou para a namoradeira em questo. Confortvel no era bem o termo que usaria para descrev-Ia, mas, comparada s outras cadeiras e sofs na sala cavernosa, 
concluiu que ela estava certa. Passou a mo sobre o retngulo branco que marcava o encosto de cabea. 
    - Capas - identificou, com uma risada. - No sabia que ainda eram fabrica das. 
    Stephanie voltou-se para ele, um punhado de papis na mo e algo vagamente semelhante a um sorriso nos lbios. - No fabricam, mas Clare faz. 
    - A sua cunhada? 
    - Sim. Capas para encosto de cabea no so artigos populares hoje em dia, 
    - Eu tinha uma tia que colocava-as em todos os mveis da sala da frente, como ela dizia. - David foi at a lareira em que caberia uma casa para quatro Pessoas. 
- No nos era permitido entrar nessa sala, mas, s vezes, quando estvamos de visita, eu ia espiar. Era como invadir uma propriedade... 
    - Franziu o cenho, como se, de repente, percebesse o que estava dizendo, e pigarreou. - No que esta sala se parea com a de tia Min - emendou, rpido. - Esta 
,bem,  ... interessante. 
    - No tente ser educado, sr. Chambers. Vai contra a sua natureza. Alm disso, no h necessidade de medir as palavras. Esta sala no  interessante.  feia. 
Todos sabem disso. S Avery gostava dela. 
    - Stephanie passou-lhe os documentos. - Esta  toda a correspondncia que mantive com o meu advogado, com o juiz, com Dawes e Smith... 
    - Os advogados de Clare? 
    - Isso mesmo. 
    David folheou os documentos. - Impressionante. 
    - E intil. Eu j tinha perdido a guerra antes mesmo do primeiro tiro. 
    - Sim. Jack me contou que seu marido e a irm possuam todas as propriedades em conjunto. Isso significa... 
    - Eu sei o que significa - adiantou Stephanie, impaciente. 
    - Eu tambm sei o que Avery me prometeu... 
    - Dinheiro - completou David. 
    - Dinheiro ao qual tenho direito. - Ela ruborizou, mas manteve a cabea erguida. - E quanto a ter perdido a guerra antes mesmo do primeiro tiro... precisa ficar 
ciente de que no h uma pessoa nesse distrito que queira que eu fique com um centavo sequer do esplio de meu marido. 
    - O que as pessoas querem pouco tem a ver com o que a lei determina. 
    Stephanie riu. 
    - Sr. Chambers, olhe ao seu redor. Est na casa de Avery Willingham, na cidade batizada por um ancestral dele. Talvez eu tenha abreviado uma ou duas geraes, 
nunca memorizei muito bem. Meu marido possua essa cidade e as pessoas que nela vivem. Todos o admiravam, o reverenciavam... 
    - Todos, menos voc - observou David, sem deixar de encar-Ia. 
    Stephanie no desviou o olhar. 
    - Veio aqui para julgar ou para dar um parecer jurdico? . 
    Se for para julgar, devo inform-lo de que j fui julgada o bastante, nesse caso, pode dar a volta e ir embora. Se for para dar um parecer jurdico, sugiro que 
leia esses documentos e me diga logo o que acha. 
    David sorriu. 
    -Concluo que no  adepta da delicadeza das mulheres sulistas, sra. Willingham. 
    - Delicadeza  tolerncia e no tenho tempo, nem pacincia para tanto. 
    - No. No com os bens de seu marido em jogo. Ela nem piscou. 
    - Isso mesmo. Ento, o que vai ser? Vai analisar os documentos ou vai embora? 
    Espantoso, pensou. Essa mulher s tinha a aparncia de fragilidade. Por baixo do exterior delicado, tinha uma fora que ele admirava, ainda que no admirasse 
a origem daquela fora. 
    - Bem? O que vai ser, sr. Chambers? 
    A lgica e a razo diziam que ele deveria largar os papis na mesa mais prxima, mas passara vrias horas na estrada para chegar ali. De que adiantaria ir embora 
quela altura? Alm disso, estava fazendo um favor a Jack, e no  sra. Willingham. Assim, foi at a namoradeira que ela indicara, desabotoou o.palet e sentou-se. 
    - Prepare um bule de caf forte para mim e conversaremos daqui a uma hora. 
    Stephanie esforou-se para no demonstrar o alvio que sentia. Por um minuto, pensou que David poderia largar os documentos e ir embora. E no queria isso, apesar 
das ameaas.  Precisava de seu conselho  e era s o que queria daquele homem. 
    
    Ela ficou observando enquanto ele comeava a ler a primeira pgina. Aps um minuto, ele franziu o cenho, soergueu-se, despiu o palet e colocou de lado. Ento, 
endireitou-se e ergueu as mangas da camisa, sem tirar os olhos dos papis. 
    J tinha se esquecido da presena dela. Bem, Stephanie estava habituada a isso. Avery costumava fazer a mesma coisa... No, no era bem assim. O marido ignorava-a 
deliberadamente. Era seu jeito de mostrar-lhe seu lugar naquela casa, enquanto David mantinha-se alheio por estar concentrado nos documentos. Ele mantinha o cenho 
franzido, os olhos azuis perspicazes fixos no txto.         
    Ela focalizou as mos. Eram fortes e muito masculinas. Os antebraos musculosos cobriam-se de uma penugem escura. 
    Ele deveria parecer deslocado naquele ambiente extico, mas, ao contrrio, parecia... parecia... grande e maravilhosamente selvagem. David dominava o ambiente 
com sua presena. 
    - Mereo um caf ou no? 
    Ela espantou-se com o tom rude. Ele ergueu o olhar, a expresso enigmtica, e ento sorriu-lhe, condescendente. -Ou voc no sabe fazer caf? 
    - Ficaria chocado com o que eu sei fazer - informou Stephanie, desdenhosa. 
    Duvido, pensou David, enquanto ela deixava a sala. Respirou fundo e forou-se a concentrar-se nos documentos e nas leis. 
    A lei, pelo menos, sempre fazia sentido. 
    David mal notou Stephanie pousando uma bandeja na mesa a seu lado. Estendeu a mo, localizou a xcara pelo tato e tomou um gole. O caf estava forte, quente 
e muito gostoso. Aprovado. 
    Quando ergueu a cabea novamente, a xcara e o bule estavam vazios. Stephanie estava sentada  sua frente, com os tornozelos cruzados e as mos no colo. 
    - Bebeu todo o caf - comentou ela. - Quer que eu prepare mais? 
    David balanou a cabea, movimentou os ombros e pegou os documentos que estavam sobre uma almofada. 
    - No, chega. J acabei de ler. - Ele levantou-se e foi at a escrivaninha . 
    - E - indagou Stephanie. - O que acha? 
    Ele se voltou para encar-Ia. Viu seus dedos entrecruzados . 
    Ela, estava apreensiva e no podia culp-Ia. Investira mais de seis anos num projeto chamado Avery Willingham e agora teria o pagamento cancelado. 
    - As chances de uma mudana na deciso do juiz so de poucas a nenhuma. 
    - No quero que ele mude a deciso. Pensei que tivesse entendido isso. Clare pode ficar com tudo, Eu s quero o que me foi prometido. 
    - Que equivale a nada. Aos olhos da lei, no h provas de que tenha sido feita alguma promessa. 
    Stephanie assentiu. Seu semblante nada revelava. - Bem, ento, acho que ... 
    - No adianta tentar enganar nesse caso - declarou David com voz rouca. 
    - Enganar? 
    - Sobre por que decidiu depenar Willingham. - Ele assentiu  escrivaninha e aos documentos. - Foi um acordo, puro e simples. Ele depositava dinheiro na sua conta 
e voc lhe dava o que ele queria. Tenho que admitir, Scarlett, voc parece frgil, mas tem uma caixa registradora onde as pessoas geralmente tm corao. 
    Stephanle ruborizou e levantou-se. 
    - Ao contrrio de sua deduo, sr. Chambers, eu no decidi depenar Avery. Eu o conhecia h muitos anos. Trabalhei para ele como secretria. - David desdenhou 
e ela aproximou-se, zangada. - Eu era uma secretria muito eficaz! 
    - At olhar ao redor e ver que tinha uma vaga mais bem remunerada. 
    - Voc  como todo o mundo! J sabe de tudo e no d a mnima para a verdade. 
    - Conte-me, ento - desafiou David, de repente srio. D-me um motivo para continuar, d-me outra perspectiva, faa com que isso tudo possa ser interpretado 
de outra forma. 
    - Quer que eu prove a minha inocncia? Pensei que os advogados defendiam seus clientes, independentemente de serem culpados ou inocentes. 
    - Voc est distorcendo os fatos, Scarlett. Voc no  minha cliente, lembra-se? Quanto a culpa ou inocncia, no  o caso aqui. 
    - Ento, por que quer que eu me defenda perante voc? 
    - No quero. 
    - timo. Porque no tenho essa inteno. - Stephanie 
    levou as mos aos quadris. - Mas vou dizer-lhe uma coisa. Fui secretria de Avery por um ano. E ento ... - Sentiu um n na garganta e engoliu em seco. - Ento, 
ele disse que precisava mesmo era de uma esposa. Algum que administrasse a casa e entretesse suas visitas. 
    David sorriu, conhecedor. 
    - E aposto como voc se saa melhor entretendo do que taquigrafando. 
    - Em troca, Avery concordou em... em me recompensar. 
    Foi idia dele, tudo. O casamento, os termos... e o pagamento. 
    - E voc aceitou logo. 
    Stephanie pensou em como ficara chocada quando Avery propusera-lhe o acerto. Pensou em como agonizara com aquilo. Pensou em como ele observara que era a nica 
maneira de ela garantir o tratamento de Paul... 
    E na promessa de que nada entre eles mudaria. 
    -  assim que advogam no seu escritrio, sr. Chambers? 
    - A voz dela saiu fria e firme. Tinha que sair. Jurara que nunca demonstraria fraqueza novamente. - Os advogados poodem ser juzes e jri tambm?  
    David sorriu de tal jeito que Stephanie teve vontade de recuar um passo. 
    - No. No podem. - Ele comeou a avanar e ela recuou um passo, depois outro, at que seus ombros atingiram a paarede.  - Francamente, sempre achei isso uma 
lstima. Aps algum tempo, a maioria dos advogados sabe dizer se o cliente est falando a verdade ou um monte de bobagens, 
    - Eu no sou sua cliente, lembra-se? 
    -  uma boa histria, Scarlett, e voc a conta muito bem. 
    Mas a verdade simples  que voc induziu Avery Willingham ao casamento. Bem, talvez induzir seja uma palavra muito forte. - Ele procurou outro termo. - O que 
voc fez foi lanar a isca. Ento, voltou a seu posto e ficou esperando... 
    - Saia da minha casa! 
    - Qual  o problema? A verdade  dura demais para a sua delicadeza? Ou h alguma outra verdade que por acaso me escapa? Se h, conte-me agora. 
    Claro que havia outra verdade. A nica verdade. Mas prometera a Paul que nunca revelaria a ningum. 
    - O pobre sr. Willingham comprou voc. Dois mil e quinhentos dlares por ms, depositados em sua conta. Esse foi o acordo. 
    - Sim - confirmou ela. - Esse foi o acordo. 
    David assentiu calmamente, embora sentisse o estmago embrulhado. Avaliou os olhos castanhos dela. O que esperava? Que ela chorasse? Que ela inventasse alguma 
histria incrvel, como a de ter sido forada ao casamento? Ao chegar ali, j sabia a verdade. Ela se vendera pela maior oferta. Fora para a cama por dinheiro.. 
    Mas, se ele tivesse pedido; ela teria ido para a cama com ele por desejo. Ela gemera de prazer em seus braos, correspondera aos beijos com uma paixo que ele 
ainda tinha na memria e ele no comprara esses momentos com moedas. Poderia faz-la gemer novamente, quer-lo novamente, ainda agora. Tudo o que precisava fazer 
era estender... 
    David praguejou mentalmente. Passou por ela, respirou fundo, s o bastante para recuperar o controle, e ento voltou-se. 
    - Queria a minha opinio profissional e a est. - Ele a encarou. - Deveria ter consultado um advogado antes de concordar em se casar com Willingham. 
    - Avery era advogado - informou ela. - Ele me assegurou que estava tomando conta de tudo. 
    - Sim, bem, ele com certeza tomou conta. Ele arrumou para que a festana acabasse no dia em que ele morresse. 
    - Eu pensei ... eu esperava que o meu ... meu acerto com meu marido pudesse ser baseado em um tipo de contrato  argumentou Stephanie. 
    - Voc quer dizer; um contrato oral? - David balanou a cabea. - Voc precisaria de uma testemunha imparcial, ou, pelo menos uma srie de circunstncias que 
justificasse a pertinncia do contrato. A sua melhor chance seria achar um juiz que ficasse com pena e considerasse que um homem no deixaria a esposa sem um centavo 
... mas voc j tentou essa alternativa. 
    Ela assentiu, enfiou as mos nos bolsos da cala jeans e olhou para o assoalho. Pela primeira vez, a derrota transparecia em sua postura corporal. Apesar do 
que sabia sobre ela, David sentiu uma ponta de simpatia. 
    - Acha que o sr. Russell concordaria com a sua opinio? - Sim - declarou David, pois no havia motivo para mentir. 
    - Bem. Desculpe-me pelo incmodo, sr. Chambers. 
    - Voc pode entrar em contato com outro advogado, no o que a representou antes. Pergunte se ele pode levar o caso adiante. 
    - No. Deixou claro que seria uma batalha perdida e, alm disso, ningum por aqui quer se envolver. - Ela estendeu a mo. 
    - Suponho que possa conseguir uma prorrogao, assim, no ter que sair da casa hoje. 
    Ela enfiou a mo novamente no bolso e balanou a cabea. - No adianta ficar' protelando o inevitvel. 
    - Tem para onde ir? 
    - Claro - respondeu Stephanie, rpido demais. A mentira saiu com facilidade, mas no ia deixar que o mundo, e que David em particular, soubesse quo ruim era 
sua situao. 
    - E voc fez uma poupana. Todo esse dinheiro, indo para a sua conta ms a ms... Deve ter o bastante para um recomeo. 
    Mentir mais uma vez foi ainda mais fciL 
    - Com certeza. Obrigada por seu tempo e, por favor, agradea ao sr. Russell tambm. Agora, se no se importa, tenho muitas coisas para providenciar... 
    - S fico imaginando ... dava valor ao seu marido pelo dinheiro que ele tinha? 
    Ela voltou-se rapidamente, o rosto ruborizado. 
    - No  da sua conta! 
    - Na verdade, . 
    O que pensa que est fazendo, Chambers?, sussurrou uma voz interna, mas ele ignorou-a. A verdade era que ultrapassara o ponto de retorno havia duas semanas, 
no avio. 
    - E da minha conta, sim. Como seu advogado... 
    - Um de ns ensandeceu, sr. Chambers. O senhor deixou bem claro que no  meu advogado. 
    - Questo de semntica - embromou ele. - Eu lhe dei conselho jurdico, no foi? 
    - Deu, sim, mas ... 
    - Ento, seria negligente se no lhe perguntasse se voc no manteve a sua parte no contrato oraL - Mas voc disse que... 
    - Eu sei o que eu disse. - Ele no sabia. No sabia nem o que estava dizendo naquele momento. S sabia que queria toc-Ia novamente, que algo primitivo estava 
manifestando-se em seu ser. Ela parecia to perdida, s. - Preciso de mais informaes - reiterou, e foi at ela, permanecendo a poucos centmetros de distncia. 
- Sobre o seu relacionamento com Willingham. 
    Ele focalizou o rosto confuso de Stephanie. Estendeu a mo e o acariciou. Ela se afastou, assustada. 
    - Voc gostava dele? Fora o dinheiro,quero dizer... Era feliz com ele?  
    - No tem o direito de fazer tal pergunta...  
    - Voc estremecia quando ele a tocava? 
    Ele tomou-lhe o rosto na mo e, ento afagou-lhe o pescoo. 
    Ela sentiu a mo quente e enrijeceu-se, tentando negar o que sentia. Simplesmente no podia .. no devia... 
    - Voc estremece quando eu a toco - informou ele, a voz grave e rouca. - Como agora. 
    - Pare - advertiu ela, mas a voz saiu fraca. - David, pare. Ele focalizou sua boca. Ela entreabriu os lbios, como ele previra. Ele sentiu uma onda de calor 
invadir-lhe o corpo. Proonunciou o nome dela, envolveu-a nos braos, enterrou a mo em seus cabelos sedosos e sentiu o peso da massa de fios. 
    - David - sussurrou ela, e ficou sem flego. - David? 
    - Sim - atendeu ele, mergulhando na escurido dos olhos castanhos. - Isso mesmo. David. S David... . 
    Ele a beijou. Ou ela o beijou. No final, no importava mais. 
    A fuso completou-se. Bocas, corpos ... Onde ela comeava e ele acabava? David no sabia e no se importava. No queria pensar em mais nada, s na sensao de 
ter Stephanie em seus braos, ardente e receptiva. 
    
    
    CAPTULO OITO
    
    Nada importava, s estar nos braos de David Stephanie sentia-se leve e moldou seu corpo ao dele. Toda a racionalidade desaparecera. 
    Toc-Io. Sentir o calor do corpo dele. A carcia da lngua em sua boca. Sentia-se girando, girando, como um planeta ao redor do sol incandescente. 
    David sussurrou seu nome quando segurou-lhe  o rosto para aprofundar o beijo. Disse algo mais contra seus lbios. No entendeu as palavras, mas sabia o que ele 
queria dizer. A resposta veio na forma como o acariciou e moveu-se contra seu corpo. 
    - Scarlett... - Ele apalpou-lhe as ndegas e ergueu-apara que sentisse o efeito de sua ao. 
    A realidade deveria t-Ia assustado, como no passado. Mas o que sentiu foi excitao. Aquele era David... um sonho esquecido de menina. Ele era um milho de 
desejos reprimidos, e muito mais. 
    - Diga o que quer - declarou ele. Apalpou-lhe o seio e pressionou os lbios contra seu pescoo. - Diga que sou eu, Scarlett. Diga...  
    - Minha nossa! Ora, ora; que cena escandalosa! - exclamou uma voz rabugenta. 
    Eles se afastaram. Instintivamente, David posicionou-se  frente de Stephanie enquanto se voltavam para a recm-chegada, No meio da grande sala, postava-se uma 
mulher no mnimo vinte anos mais velha do que Stephanie. 
    - Clare? - identificou Stephanie, constrangida. 
    - A irm de Avery Willingham. - David estreitou o olhar. 
    - Em carne e osso - afirmou a mulher, malvola.- E posso saber que  o charmoso visitante? 
    Stephanie aproximou-se da cunhada. - O que est fazendo aqui, Clare? 
    - O que estou fazendo aqui? Que pergunta. Esta casa  minha, mocinha. No preciso de um motivo para estar aqui. - No  sua, no at a meia-noite. 
    Clare encolheu os ombros. 
    - Um detalhe tcnico. 
    - At l, por favor, toque a campainha se quiser entrar. - Eu toquei, mocinha. Mas ningum respondeu. Claro que entendo o motivo. Voc estava... ocupada. Voc 
e o cavalheiro... - Chambers. David Chambers - apresentou-se ele. 
    - Prazer, sr. Chambers. Lamento t-Io interrompido, mas no sabia que Stephanie estava entretendo um cavalheiro, sendo esta semana to movimentada para ela... 
    David pousou a mo no ombro de Stephanie. Ela estava rgida, mas tambm trmula. 
    - O que voc quer, Clare? 
    - Ora, s estou me certificando de que tudo vai correr conforme o previsto. Tudo o que est aqui  meu, mocinha. Todas essas peas preciosas que vm passando 
de gerao em gerao. 
    - Como poderia me esquecer disso? 
    - No vai levar nada, est entendendo? Nem um talher. - No precisa se preocupar, Clare, No quero nada dessas... dessas coisas. Pretendo sair com a mesma mala 
com que entrei. ~ Apenas certifique-se de que no vai levar nada alm do que trouxe para c, entendeu, mocinha? 
    - O seu advogado j fez um inventrio. 
    - E como vou saber ql,le no vai levar nada meu? Gente como voc  capaz de qualquer coisa. 
    - V embora, Clare. Pode fazer todas as grosserias que quiser depois da meia-noite. 
    - E aquele armrio cheio de roupas que meu irmo comprou-lhe. Certifique-se de que... 
    - A roupa  da sra. Willingham. 
    Ambas as mulheres olharam para David. 
            - Perdo? - declarou Clare.  
    
    - Eu sou o advogado da sra. Willingham e disse que as roupas pertencem a ela.  propriedade pessoal. 
    Clare riu. 
    - No desiste, no , mocinha? Bem chegou tarde, senhor advogado. 0 caso j  foi encerrado. 
    - Encerrado ou no, a sra. Willingham tem certos direitos. 
    Estou aqui para garantir que ela os exera sem interferncia.
    - Verdade? E eu que achava que o senhor e minha cunhada eram... bem, no vou usar a palavra. Sou uma lady. 
    - Mesmo? - David sorriu irnico. - Pensei que uma lady soubesse que invadir propriedade  contra a lei. 
    - No seja ridculo! Esta manso me pertence. 
    - No at a meia-noite. 
    - Eu tenho uma chave! 
    David ergueu uma sobrancelha. 
    - Deu uma chave a esta senhora, sra. Willingham? Stephanie olhou para ele, atnita. Nesse meses todos, era a primeira vez que algum vinha em sua defesa. 
    - No. No, eu... 
    - Minha cliente diz que no lhe deu uma chave e sou testemunha de que a senhora no pediu permisso para entrar, nem recebeu autorizao. De onde eu venho, isso 
a torna uma invasora at que a ordem do juiz entre em vigor. 
    Clare lanou um olhar maligno para Stephanie . 
    -  melhor dizer a esse seu advogado exaltado que ele est sendo estpido! Talvez ele no saiba quem eu sou! 
    - Ele sabe quem voc  - afirmou Stephanie. - E temo que ele saiba tambm o que voc ! 
    - No sei que brincadeira vocs dois esto fazendo. S lhe digo uma coisa,  melhor estar fora daqui  meia-noite. 
    - Com prazer. 
    - Eu fiquei sabendo do telefonema que deu ao juiz... 
    - No precisa entrar em detalhes - apressou-se Stephanie. 
    - ...pedindo tempo para encontrar um lugar para morar e um emprego, lamuriando-se por no ter um tosto... 
    - Eu disse que no quero discutir esse assunto agora, Clare. 
    - Veio para esta manso sem nada e vai sair sem nada. . Pode dormir na rua, por mim! 
    - Isso  verdade? ~ indagou David, brando, encarando Stephanie. 
    - No  problema seu! 
    - Stephanie, responda-me! Voc tem dinheiro e lugar para morar? 
    - Ela no tem nada! - tripudiou a cunhada. 
    - Raios, diga que ela est mentindo! - grunhiu David. 
    - No tenho, David. Ela est dizendo a verdade. Est satisfeito? 
    David estreitou o olhar. O que ela fizera com o dinheiro que recebeu de Willingham? No que isso fosse de sua conta. Socorrera-a porque era atitude correta. 
Nenhum advogado permitiria que ela entregasse uma propriedade que legalmente ainda lhe pertencia. Mas o resto, o que aconteceria a ela depois... ela estava certa. 
No era problema dele. 
    - Apenas certifique-se de que nada que me pertence caia na sua mala acidentalmente quando voc for embora! - vociferou a cunhada. 
    - Eu no vou levar nada desta casa, Clare. No quero nada que tenha pertencido aos Willinghams. No entendeu isso ainda? 
    - E melhor voc entender que espero reaver tudo o que me pertence. Ouviu? 
    - Ouvi - declarou Stephanie. 
    Ento, com um movimento gracioso de mo, que quase poderia ser acidental, esbarrou na mesa onde estatuetas horrveis de cupidos e pastores estavam dispostas, 
fazendo-as ir ao cho. 
    Ninguem se moveu. Ningum nem mesmo respirou. Clare, Stephanie e David olharam para o cho. 
    Stephanie foi a primeira a erguer a cabea. 
    - Oh, minha nossa, olhem o que eu fiz, no sei como pude ser to desastrada! 
    - Ora, sua ... sua ... 
    - Acidentes acontecem - declarou David, tentando controlar o riso. - No  mesmo, sra. Willingham? - Infelizmente. 
    - Acidente? No foi acidente! Ela fez de propsito! 
    - Pode mover um processo - aconselhou David. 
    - E para qu, espertinho? Sua cliente est falida, ou j se esqueceu disso? 
    - No. No me esqueci. Mande a conta para mim, ento. 
    - David, isso no  necessrio ~ protestou Stephanie. 
    - Claro que ! - Clare agarrou o carto de David: - Quanto vai custar repor essas peas. Elas so... 
    - Peas preciosas que vm passando de gerao em gerao. 
    - David assentiu e olhou para as peas danificadas. Um caco chamou-lhe a ateno. - Made in Taiwan - leu, em voz alta. Como disse, pode mandar a conta. 
    - David, no  necessrio. Eu posso recompensar Clare pelos objetos. 
    - Quando? - exigiu Clare. 
    - Sim. Quando? - indagou David tambm. 
    - Bem... bem, eu entrarei em contato assim que estiver instalada. 
    - Assim que tiver onde morar - traduziu ele. -E assim que tiver dinheiro para comprar mantimentos, quer dizer. 
    Stephanie ruborizou. 
    - Meu domiclio e modo de vida no interessam a ningum alm de mim. 
    - Deveria interessar  corte. O seu advogado dormiu no ponto quando cuidou do seu caso. 
    - No quero discutir esse assunto! - esbravejou Stephanie. 
    - Eu trabalhava como secretria. Posso arrumar um emprego novamente. Irei... irei para Atlanta. Arranjarei um emprego e reembolsarei Clare at o ltimo centavo. 
    Foi quando David teve a idia. Era simples, bvia e lgica. 
    Uma soluo excelente, ainda que temporria, para todos os problemas. Claro, se ele ignorasse a voz interior gritando "enlouqueceu ?" 
    - Tem razo. Voc vai reembols-Ia. 
    Stephanie assentiu. 
    -Bem, estou contente por estarmos de acordo. 
    - Eu lhe darei um adiantamento de um ms e voc poder enviar-lhe um cheque. 
    - O qu? 
    - No  um procedimento comum. A Russell, Russell, Hanley e Chambers no oferece esse beneficio de financiamento de dvidas a novos funcionrios, mas vamos abrir 
uma exceo. Afinal, agora que lhe arranjamos um bom emprego... 
    - Arranjamos? 
    - Como minha secretria. 
    Stephanie ficou boquiaberta. - Como sua... 
    - Minha secretria. Exatamente. 
    - No! David... 
    - E agora que tive tempo para pensar no assunto, aconselho-a a deixar as tais roupas aqui. Stephanie? - David estendeu a mo para ela. 
    Stephanie olhou para a mo dele e pensou na mala aberta sobre a cama. 
    - Stephanie? Podemos partir? - convidou ele. No seja estpida, censurou-se, no seja idiota... - Sim, podemos - concordou ela. 
    Sorrindo, aceitou a mo estendida e caminhou para fora da manso, para longe da cunhada horrvel e das lembranas terrveis de uma vida que nunca desejara. 
    Aquele dia comeara com brisa suave e sol brilhante. Ao deixarem a manso, o tempo j comeava a fechar. Enquanto viajavam pela estrada, j estava chovendo farte. 
    Stephanie mantinha-se rgida e silenciosa. A euforia da partida j se dissipara. O que foi que eu fiz?  Perguntava-se. Quando David ligou o limpador de pra-brisas, 
veio o comando da razo. - Que tal uma msica? 
    Ela sobressaltou-se com a voz dele. Ele no falara nada at aquele instante. Olhou-o. Era um homem acostumado a ter o que queria. 
    - Stephanie? 
    Msica. Ele estava perguntando se ela queria ouvir... 
    - Sim. - Ela engoliu em seco. - Msica seria timo. Ele apertou um boto no painel. Arpejos elaborados invadiram o carro. 
    - Desculpe-me. Gosto de msica clssica, mas sei que no  o momento para ouvir Rachmaninoff. Gosta de msica popular? Ou sucessos antigos? 
    Ela suspeitava de que David estava com o pensamento longe tambm. Talvez houvesse mudado de idia quanto a oferecer- lhe um emprego... Se sabia algo sobre David 
Chambers, era que ele no hesitava em dizer o que pensava. Sendo assim, se estivesse arrependido, ele j teria encostado no meio-fio e falado sem rodeios... 
    David segurou o volante com mais fora. Infelizmente, no se importava muito com as palavras daquela msica em particular, aquela que s ele podia ouvir. 
    Perdera o juzo. O que mais explicaria estar viajando de carro por uma estrada da Gergia com Stephanie a seu lado? Olhou-a de soslaio. Pessoas na sala de espera 
do dentista pareciam mais felizes, e quem poderia culp-Ia? Ele mesmo no estava no melhor dos humores. 
    O que tinha dado nele? Tinha ido  Gergia para prestar um favor a Jack. Certo. Tinha ido  Gergia para olhar friamente para Stephanie e tir-Ia da cabea. 
    Certo. Ela no o colocara naquela trapalhada. No diretamente. Ele se envolvera sozinho. Mas ela ajudara. Raios, ela ajudara. Na cabea, comeou a ouvir a melodia 
de A Viva Alegre. Pois Stephanie era exatamente isso, uma viva que no se importava em fingir a dar, que dizia no ter um centavo, nem emprego, nem um lugar para 
morar... 
    E da? Aqueles eram problemas dela, no seus. 
    Pense na caso. Concentre-se nas leis. Quais eram os fatos? 
    Um homem podia deixar a viva sem um tosto quando possua muito dinheiro.? Ele podia manipular as coisas a ponto de fazer  com que a mesada da esposa cessasse 
no dia de sua morte? 
    Toda viva tinha direito a alguma coisa, pois no? A corte deveria ter discutido a questo. 
    Por outro lado, como Stephanie podia estar sem dinheiro? 
    Com aquela mesada, ela devia ter acumulado o bastante para recomear a vida sem problemas. 
    David franziu o cenho... 
    Onde estava o dinheiro.? O que ela fizera com ele? Essa era a grande pergunta. Par que ele deixara de indagar sobre isso? 
    Porque no era a pessoa certa para conduzir o caso. Seu envolvimento era muito pessoal. Cliente e advogado trabalhavam melhor quando havia espao entre eles, 
no quando o histrico inclua um breve episdio romntico trrido dentro de um avio. 
    Havia uma sada. Levaria Stephanie a Washington, providenciaria um hotel para ela e telefonaria a Jay O'Leary.  Ou Bev Greenberg ou a qualquer um dos advogados 
jniores da firma. Um deles ficaria feliz em pegar o caso e, se bem se lembrava, uma das secretrias sairia de licena na semana seguinte para ter seu beb? 
    - Isso mesmo - murmurou David. 
    - Como? 
    Ele olhou para Stephanie. 
    - Nada - disse ele, e sorriu. 
    Ainda sorrindo, aumentou o volume do som e passou a cantarolar junto. 
    Nada? Stephanieolhou pela janela, mas o pensamento estava longe. Por que ele ficou to animado de repente? 
    Percebeu que estava com um pente no bolso. 
    Bem, isso  bom, Steffie. Voc tem um pente, pelo menos. 
    Dever ser de ajuda quando chegar a Washington e descobrir que esse homem no tem inteno de ajud-la. At onde sabe, ele bem pode dizer que os seus servios 
de "secretria" comeam e terminam na cama. 
    - Pare o carro! 
    David olhou para Stephanie. Ela parecia raivosa e j estava soltando o cinto de segurana. Praguejou e jogou o carro para a direita, estacionando no acostamento. 
O carro que vinha atrs deles passou buzinando. 
    - O que pensa que est fazendo? 
    Ela abriu a porta, saiu como um projtil e correu para a mata prxima. 
    David soltou o cinto de segurana e foi atrs dela. 
    Foi fcil agarr-Ia, mas precisou derrub-Ia sobre as folhas do outono para imobiliz-Ia. Stephanie ficou de costas com ele em cima dela. 
    - Stephanie... 
    - No fique me chamando de Stephanie, seu... seu... 
    Ela o socou no estmago. Ele grunhiu e agarrou-lhe os pulsos, prendendo-os acima da cabea. 
    - Solte-me! 
    - No, se no parar de me bater! 
    - Solte-me, seu... seu... 
    - Ficou maluca? O que eu fiz para ser tratado assim? 
    - Voc nasceu com os cromossomos errados. Solte-me! 
    - Vai se comportar se eu a soltar? 
    -Vou. 
    S um idiota acreditaria nela e David j cometera esse equvoco havia uma hora, ao introduzi-Ia em sua vida. 
    - Voc bate bem. O que foi? Cresceu num ginsio de boxe? 
    - No. Aprendi com um irmo que achava que as mulheres precisavam se defender de homens como voc! 
    - Homens como eu? Ora, voc precisa mesmo se defender de caras como eu. Olhe o que eu fiz! Defendi voc contra... 
    - Voc no me defendeu. Por que defenderia? No preciso ser defendida. 
    - Precisando ou no, eu a defendi. E ofereci aconselhamento jurdico... 
    -Algum aconselhamento. Voc disse que eu no tinha chance nenhuma de obter a penso que vinha recebendo. 
    - No foi apenas um aconselhamento. Foi um aconselhamento profissional de primeira linha. Alm disso, dei-lhe um emprego. 
    - Ah, ? 
    - Oua, senhora, talvez datilografar cartas no seja to extico quanto o que estava acostumada: a fazer, mas muitas mulheres em sua posio ficariam gratas. 
    - E o que isso significa? "Mulheres em minha posio?" 
    Qual , exatamente, a minha posio, sr. Chambers? 
    Era uma pergunta que permitia vrios nveis de interpretao. Uma delas dizia que a posio de Stephanie era bem abaixo dele e, se ela continuasse se contorcendo 
daquele jeito, logo teriam problemas. 
    - Certo. Olhe o que vou fazer. 
    - Oh, eu sei o que vai fazer. 
    - Vou me levantar. Mantenha-se calma e ns vamos conversar. 
    - J conversamos! Nunca deveria ter lhe dado ouvidos, em primeiro lugar! Tirar-me daquele jeito da casa e eu nem parei para perguntar por qu! Voc no  melhor 
que Avery, seu... seu mentiroso! 
    - Ele mentiu para voc? O seu marido? 
    - Sim, ele mentiu para mim. Ele disse... ele disse que tomaria conta das minhas... das minhas necessidades pelo tempo que fosse necessrio, mas no cumpriu a 
promessa. 
    - Que necessidades? 
    Stephanie olhou para David. Ele mantinha os olhos cor de safira fixos nela. O resto tambm estava fixo. Peito com peito. Quadril com quadril. Coxa com coxa. 
Desesperada, ela tentou se desvencilhar. 
    - No... - David prendeu a respirao. - No faa isso. 
    - Fazer o qu? 
    - Isso - alertou ele e reprimiu um gemido quando ela se mexeu novamente. - E voc com aquela conversa de cromosssomos. O que devo fazer? Mapear o meu DNA? 
    Ele acabou no agentando mais e reagiu aos estmulos. 
    Percebeu que ela entendera o que se passava. 
    Finalmente ela parou de se agitar. No estava mais se debatendo. Ele mesmo s conseguia pensar na maciez dela. No calor. No perfume. 
    - Solte-me - pediu ela. 
    Ele gostaria de solt-Ia. Gostaria at de beij~la, se ela no estivesse to zangada. 
    - Quero me levantar. Agora. 
    - No vou machuc-Ia. 
    - Apenas... apenas saia de cima de mim. 
    - Promete que no vai fugir? Eu quero ouvir voc dizendo que no vai sair correndo como um coelho assustado. 
    - No tenho a inteno de fazer isso. 
    Ele se levantou e estendeu a mo para ajud-Ia a se levantar. 
    Stephanie ignorou a ajuda, levantou-se sozinha e bateu na roupa para tirar o p. 
    - Talvez queira me contar para onde pensava ir. Ela fungou e limpou o nariz na manga. 
    - Para casa. 
    - Casa? 
    - Isso mesmo. Para casa. Para Willingham Corners. 
    - Ah, sim. Aquela casa. - David assentiu. - Pelos documentos que li, conclu que no  muito bem vista na cidade e, mesmo assim, quer voltar para l? Satisfaa 
minha curiosidade: o que fez com o dinheiro que recebeu durante todos esses anos? 
    Stephanie pensou em Paul, que sempre lhe dera coragem e fora para enfrentar as dificuldades, principalmente quando as pessoas apontavam para ela na rua e diziam 
que ela era a rebenta de Bess Horton, aquela que sumira de casa. 
    Jure, Steff, pedira Paul, jure que nunca vai contar a ningum o que aconteceu comigo. 
    Ela engoliu em seco e olhou para David. - Eu gastei. 
    - Com jogo? - questionou ele. 
    Ela fez que no.
    - Com bebida? - Novamente, no. 
    - Com drogas? Ora, Scarlett!  Tomou-a pelos ombros e balanou-a. 
    - Gastei - resumiu ela. -  s o que posso dizer. 
    - E agora vai voltar para l porque quer mais dinheiro deduziu ele. 
    - Eu quero o que me pertence. O que Avery me prometeu. Era a resposta que David esperava. S um milagre a faria dizer que no queria nada agora que o encontrara. 
Nada alm dele, seus beijos, seus braos a seu redor... 
    Ele recuou um passo, os punhos cerrados nos bolsos. 
    - Vou lev-Ia para Washington - informou ele. - Para a minha casa. - Ele quase riu quando ela reprimiu uma expresso indignada. - H um apartamento vago nos 
fundos da minha casa. Banheiro, quarto, uma saleta...  e tranca na porta. 
    - E o que quer em troca? 
    - A sua presena em meu escritrio, cinco dias por semana, das nove s cinco. 
    - Por que est fazendo isso por mim, David? 
    -  por mim - corrigiu ele. - O seu caso  interessante. 
    Bem? - Estendeu a mo. - Negcio fechado? 
    Stephanie respirou fundo. Que escolha tinha? Devagar, ela aceitou o aperto de mo. 
    - Negcio fechado. 
    David fechou os dedos e eles selaram o acordo, de maneira muito impessoal. 
    Mas ele j a trazia para seus braos. Ela se aproximou, macia e quente como mel. O tempo parou. Ele a beijou. Ao liber-Ia, olhou para o relgio e, to calmo 
que at espantou-se consigo mesmo, decidiu: 
    -  melhor irmos. 
    Stephanie permaneceu imvel. Volte, aconselhava uma voz interior. 
    Ele voltou-se. 
    - O que foi? - O tom saiu brusco, quase impaciente. Voc vem? 
    Stephanie assentiu. - Sim - afirmou, e seguiu-o. 
    
    
    CAPITULO NOVE
    
    O esquema no funcionaria. 
    Mais uma vez, David sentou-se em seu escritrio, de costas para a escrivaninha e contemplou as cerejeiras em flor.  
    Aps seis dias, cinco e meio, para ser exato, estava pronto para admitir que cometera um lamentvel equvoco. 
    Parecera to simples. Instalaria Stephanie no pequeno apartamento junto  sua casa. Ela assumiria o posto de secretria e, com certeza, faria menos confuses 
do que a sra. Murchison. No a veria de forma alguma em casa; pois o apartamento tinha uma entrada independente. 
    - Grande plano...- comentou David com as rvores... exceto que algo dera errado entre o planejamento e a execuo. 
    Para sua surpresa, Stephanie era to boa secretria quanto se dizia. O escritrio sofrera unia verdadeira transformao. Os arquivos estavam organizados por 
data, a agenda era precisa, as observaes que anotava durante as reunies e audincias rapidamente eram digitadas e impressas. Ele nem precisava mais preparar seu 
prprio caf. Por qu, se o de Stephanie era bem melhor? 
    Era agradvel t-Ia por - ali tambm. Todos  comentavam, desde o office-boy at os scios, incluindo Russell, que no gostara da idia, a princpio. 
    - No se preocupe Jack,  temporrio - assegurara ao scio. - Neste caso, guardarei os meus conselhos at voc vir pedi-los. David franziu o cenho e voltou a 
cadeira para a escrivaninha. At imaginava os comentrios de Jack se ele soubesse que Stephanie no s estava trabalhando para ele, mas tambm morando sob o mesmo 
teto, por assim dizer. 
    - No h necessidade de comentar sobre esse acerto quanto  moradia - aconselhara ele, ao chegarem em sua casa em Georgetown, no sbado. 
    - No sou tola, David. As pessoas vo falar. Pode achar difcil de acreditar, mas a minha reputao  to importante para mim quanto a sua  para voc. 
    - No  isso.  s que... eu no quero que parea que... 
    - No. Nem eu. 
    - Raios! - praguejou David e levantou-se. 
    Tudo o que fizera fora dar emprego e moradia a uma mulher que estava precisando. Alm do adiantamento salarial, de modo que ela pudesse se apresentar no trabalho 
com algo melhor do que aquela cala jeans e suter. Teria feito isso por qualquer pessoa na mesma situao... 
    A quem queria enganar? Sabia perfeitamente que era errado agir daquela forma com uma cliente e ainda ficar pensando noite e dia em fazer amor com ela. 
    
    Nunca a via, exceto no escritrio. Stephanie saa antes dele todas as manhs, pois insistia em pegar o transporte pblico. 
    - No seja boba - irritara-se. - Vamos juntos de carro. 
    - E vai fazer o qu? Deixar-me a uma quadra de distncia? 
    - Bem - hesitara ele. - Bem... 
    - Posso ir sozinha, obrigada. E serei pontual. 
    E fora. Ela sempre estava  escrivaninha, pronta para trabalhar, assim que ele chegava ao escritrio. 
    - Bom dia, sr. Chambers - saudava ela, e nunca sorria nem conversava sobre nada que no se relacionasse ao trabalho, embora ele... embora ele... 
    David pensou em outro palavro e comeou a andar em crculos pela sala. 
    Ela ia embora somente quando ele a dispensava. - Pode ir para casa, sra. Willingham. 
    - Sim, senhor - dizia ela. 
    Observava-a, ento, pela porta entreaberta, aprontando-se para sair. Requeria grande esforo permanecer no lugar e no ir atrs dela. S uma vez fora diferente, 
quando tiveram que trabalhar at um pouco mais tarde. 
    - Eu a levo para casa - oferecera-se, mas Stephanie ba- lanara a cabea. 
    - Obrigada, mas prefiro ir sozinha. 
    A frase equivalera a um tapa na cara. Por um momento insano, David pensou em tom-Ia nos braos e beij-Ia  at apagar aquele sorriso frio de seus lbios e fazer 
seu corao pulsar to rpido quanto o dele. 
    Tudo bem. Ele a manteria como secretria. Por algum tempo. 
    Mas iria providenciar-lhe outra moradia. Aquela proximidade constante estressava-o ao limite. 
    Na manh de segunda-feira, estava se barbeando quando ouviu um som vindo do encanamento. O que era aquilo?  imaginara, e ento percebera. Era o chuveiro do apartamento 
dela. - E da? - desdenhara, em voz alta. 
    A resposta, para seu azar, surgira imediatamente, com a imagem de Stephanie enrolada numa toalha, a pele macia, o cabelo molhado adornando o rosto. 
    A reao hormonal espantou-o e deixou-o zangado ao mesmo tempo. Mas o que significava aquilo? J passara da adolescncia. Era um homem adulto, com controle total 
sobre sua vida. Racional. Inteligente. Pragmtico. 
    David esfregou a testa. Se fosse tudo isso, no teria se metido naquela trapalhada. Teria apenas ido  manso Willingham, analisado o caso e voltado para casa... 
    - David? - chamou o scio Russell. 
    - O qu? - Ele voltou-se para a porta. 
    - Eu bati, David, mas no houve resposta. Voc est bem? 
            Ele expirou sonoramente. - Estou timo. 
    - Tem certeza? Se no for uma boa hora, posso voltar mais tarde. 
    - No, tudo bem. - Ele esboou um sorriso. - Entre. 
    Russell olhou ao redor. 
    - E espantoso. Nem posso acreditar. A sua sra. Willingham foi mesmo um achado, Ela est aqui s h uma semana e veja o que j fez. 
    - Muito. Mas ela no  a minha sra. Willingham. 
    - Ah. Modo de dizer,  asseguro-lhe.  mesmo espantoso. S cinco dias e tanto trabalho organizado. Tanta eficincia. E to inesperado, dada a aparncia externa 
atraente. Tudo junto, foi mesmo um achado. 
    David apoiou-se na escrivaninha, braos cruzados. - Voc j disse isso. 
    - E repito. Verdade, David, foi mesmo, bem, quero dizer... 
    - Espantoso. 
    - Sim. 
    - E um achado. 
    - Sim, isso tambm. E...  
    - Inesperado. Onde isso vai nos levar? 
    -Isso o qu? Eu estava apenas dizendo... 
    - O que voc disse h um minuto. 
    - Ento? No posso me repetir? Como o meu av costumava dizer... 
    - Sim? 
    - Se vale a pena falar uma vez, vale falar duas... Bem, estou comentando duas vezes. A moa  mesmo fantstica. - Voc est organizando um f-clube para ela? 
    Jack riu e foi at o sof, onde sentou-se. 
    - Ora, ora. Estamos sensveis hoje, no? Neste caso, talvez eu deva seguir outro conselho de meu av e ir direto ao assunto. - Por favor. 
    - Corre um boato. E, por favor, David, no me pergunte sobre o qu. 
    - Acho que me deixou em desvantagem, Jack. Eu tenho que perguntar. Boato sobre o qu? 
    - Sobre ela.  Stephanie. 
    - E o que h para se comentar? Pensei que estivssemos de acordo. Ela est fazendo um excelente trabalho. 
    - Um excelente trabalho. O boato no  sobre o trabalho, David . 
    - Boatos so bobagem, Jack. Devia saber disso. 
    - Sm, mas  verdade? Ela est morando na sua casa? 
    -  verdade - confirmou David. 
    - Uau, David... 
    - E o boato informa que ela est morando em um apartamento independente da casa? 
    Russell balanou a cabea, desanimado. 
    - No acredito nisso! Como pde se colocar nessa situao? 
    Eu no disse nada quando a trouxe para o escritrio, mas... 
    - Eu a contratei para exercer uma funo. 
    - Mas lev-Ia para morar com voc...  
    - Ela no est morando comigo! Ela est morando ,num apartamento que coincidentemente fia junto  minha casa. 
    - Com certeza, percebe o que isso parece. Ora, rapaz ... 
    - E se ela estivesse morando comigo, ningum teria nada a ver com isso ... 
    - Calma. No estou questionando a sua vida pessoal. 
    Estou questionando a sua sanidade e, por favor, no me diga que no v nenhum problema nas pessoas acharem que est dormindo com a secretria ... uma secretria 
cuja reputao a precede.  
    - Oua, Jack. - David encarou o advogado mais experiente, sentou-se na cadeira e enterrou o rosto nas mos. - Eu fiz a maior trapalhada. 
    - Sim, voc fez mesmo - incentivou Russell, gentil. David ergueu o olhar. 
    - Eu no estou dormindo com Stephanie. Voc, de todas as pessoas, deveria saber que eu no cometeria essa trapalhada. - Parece que algum notou que ela deu o 
mesmo endereo que o seu na ficha de emprego, e... bem, voc sabe, as pessoas comentam. 
    
    - Sim. Ela disse que comentariam. 
    - Ela estava certa. - Jack apontou para um arquivo sobre a escrivaninha. O nome "Stephanie Willingham" estava manuscrito na frente. - Voc a aceitou como cliente? 
Eu pensei que tivssemos concordado... 
    - Ns no concordamos, Jack. Voc disse que este caso no era a nossa especialidade. De qualquer forma, s estou fazendo algumas investigaes. 
    -E? 
    - E Willingham e a irm arranjaram tudo para que ela no recebesse nem um centavo aps a morte dele. - Bem, ento... 
    - Ela est falida. Sem um tosto. Eu no podia dar-lhe as costas. 
    - Sim. Como eu lhe disse, lembra-e? Ela tem uma aparncia vulnervel. Mas no pode fazer caridade particular,  David.
    - Est tentando me dizer quem eu posso ou no contratar? 
    - No. Claro que no. 
    - Isso  bom. 
    - S estou dizendo que acho que cometeu um erro de julgamento ao lev-Ia para a sua casa. 
    - Quando ela puder alugar uma moradia, vai se mudar. 
    - Est cometendo um erro, David. 
    -  meu erro, Jack. 
    - Acalme-se, sim? No estou querendo ensinar-lhe como viver a sua vida. 
    - Ah, no? 
    - David, eu no sou idiota. Sei porque metade de Washington pensa em ns quando precisam de uma banca de advocacia. 
    - No me trate com condescendncia, Jack. Eu no gosto disso. 
    - No estou sendo condescendente. Estou falando a verdade; 
    - E qual  ela? Por que no diz logo que acha que a reputao da firma est comprometida... 
    - Bolas, David! No est falando com um asno! - Jack balanou a cabea. - Estou preocupado com voc. Voc, o homem. No voc, o advogado. 
    - No h nada com que se preocupar. 
    - Eu acho que h. E me sinto responsvel. Fui eu que o coloquei nessa trapalhada. Ora, voc nunca a teria visto se eu no... 
    - Eu j a conhecia, duas semanas antes de voc mencionar o nome dela e antes que voc me pedisse o favor, tambm. E no quero entrar em detalhes.  
    - David, meu filho. 
    - No sou seu filho, Jack. Sou um homem adulto e aprecio a sua preocupao, mas o que fao com a minha vida  da minha conta. 
    - Oh, raios! Mary me alertou que eu ia fazer tudo errado. 
    Oua, no me importo com as fofocas na hora do caf. Importo-me com voc, David. Gosto de voc como filho. S no quero que seja magoado por uma mulher que... 
uma mulher que... - Jack lanou os braos para o lado. - Bolas, homem, nem sei como descrever Stephanie! 
    David olhou para o amigo e mentor. De repente, a raiva se dissipou. Levantou-se e contornou a escrivaninha. 
    - Tudo bem, Jack. Eu tambm no sei como descrev-Ia. Os dois homens se encararam por alguns segundos. Ento, Russell sorriu. e bateu nas costas de David. Caminharam 
devagar at a porta. 
    - S no se enterre muito fundo, certo? 
    David quase riu. O que significava fundo? Se fosse mais para o fundo, iria se afogar. 
    -No se preocupe. Sei quando  hora de, cair fora. 
    - Quer um ltimo conselho? 
    David sorriu. 
    - No. Mas voc vai d-Io assim mesmo. 
    - A mulher  linda, inteligente e um arraso. Mas faa um favor a si mesmo. Escreva uma carta de recomendao elogiosa, faa-a procurar uma nova colocao e diga 
adeus. 
    - Vou pensar nisso. 
    - Assim  que se, fala. - Russell sorriu. - Estou contente por voc passar o fim de semana fora. 
    - Fim de semana... - David bateu na testa. - Ai, a festa dos Sheraton. Quase tinha me esquecido. 
    - Verifique a sua agenda. Tenho certeza de que a eficiente sra. Willingham anotou as providncias. 
    - Oh, bolas! A ltima coisa que queria era encontrar Mimi Sheraton. 
    Jack abriu a porta. 
    -  o que eu digo, filho. O que precisa  de uma boa desculpa que Mimi no pode ignorar. Um anel no dedo. - Ou o meu nome no obiturio. 
    Russell riu. 
    - Pena no se poder alugar uma noiva, como fizemos com os pratos, cadeiras e mesas na festa de Quatro de Julho... 
    David sorria ao fechar a porta. 
    - Alugar uma noiva - repetiu, divertido. 
    Podia fazer algo parecido. Podia telefonar para uma de suas amigas e pedir que o acompanhasse  festa dos Sheraton... Quallquer coisa era preferivel a ficar 
fugindo de Mimi pelos corredores. 
    - Sr. Chambers?  
    David voltou-se. Stephanie olhava-o da porta. Como era bonita! - Senhor? Tem... tem um minuto? 
    Ele suspirou. Teria que contar-lhe sobre as fofocas. - Claro. Entree sente-se, sra. Willingham. 
    Stephanie assentiu, fechou a porta e avanou pela sala. 
    Stephanie no queria fazer aquilo. 
    David j fizera muito por ela. O emprego, o lugar para morar, o adiantamento salarial. No podia pedir-lhe mais. Por outro 
    lado, que escolha tinha?  O diretor, da  clnica onde seu irmo estava internado telefonara novamente. O pagamento estava atrasado dois meses. No podiam mais 
esperar. 
    - O tratamento de seu irmo  caro, sra. Willingham - justificara a diretora. 
    Como se ela j no soubesse. Sabia que era intil, mas, durante o horrio de almoo, passara no banco e verificara a possibilidade de um emprsstimo. Negativo. 
Telefonara para Amos Turner, o advogado. Ele rira abertamente. Ento, sofrera a maior humilhao de todas. Telefonara para Clare, que ouvira, permitira que explicasse 
a situao e ento comeara a rir histericamente. 
    Dessa forma, Stephanie preparou-se para o que tinha que ser feito. No havia escolha. Pediria o dinheiro emprestado a David. 
    - Quanto?! - espantou-se ele, achando que era brincadeira. 
    - Cinco mil - informara Stephanie, sem sorrir. - Sei que  muito dinheiro, mas pagarei assim que conseguir recuperar a penso de Avery... 
    - Para que precisa de cinco mil dlares? 
    Ela hesitou. O gerente do banco fizera a mesma pergunta, no mesmo tom. 
    - Eu ... eu acho que o motivo no  importante. 
    David riu. 
    - Voc  mesmo um espanto. Cinco mil no  importante? 
    - . Quero dizer, a quantia . E o motivo... Bem... 
    - No  da minha conta. Certo? 
    Ela passou a ponta da lngua nos lbios. Ele tentou ignorar o efeito sensual do movimento. 
    - Entendo que queira algumas respostas, David. Mas... 
    - No importa. Analisei o seu caso uma duzia de vezes e tenho que dizer-lhe que no vejo como recorrer da sentena do juiz. 
    Stephanie empalideceu. - Mas voc disse... 
    - Eu disse que analisaria o caso. Bem, foi o que fiz. Poderamos entrar pedindo uma penso, declarar que essa  a situao mais justa. Voc receberia uns duzentos 
dlares por semana por um ou dois anos. 
    - No basta! Eu preciso... 
    - De cinco mil dlares. Eu ouvi da primeira vez. Bem, Scarlett, temo que tenha que se habituar com uma vida mais espartana. 
    - Raios! Eu no quero o dinheiro para... para... Eu preciso dele. 
    Ele a encarou. - Para qu? 
    - Eu no posso... 
    - Pode. - Ele estendeu o brao e tomou-lhe o pulso. 
    Stephanie fitou-o por um instante e, ento, lanou-se em  seus braos, soluando baixinho. Abraou-o pela cintura, num gesto que revelava desejo e desespero 
em partes iguais. 
    David sabia que s precisava acarici-Ia, toma-la nos braos, carrega-Ia at o sof e ela se entregaria. Mas ela pertencera a Avery Willingham tambm. Pertenceria 
a qualquer homem, pelo preo certo? 
    - Tudo bem. J entendi. Voc est sem dinheiro, precisa dessa quantia e no sabe como conseguir. 
    - Em resumo - soluou ela. 
    - No vamos discutir semntica, Scarlett, est bem? J fez teatro na escola? 
    Stephanie encarou-o como se ele fosse louco. 
    Raios, pensou, talvez fosse mesmo. 
    - Teatro? 
    - Isso mesmo. 
    - No sei o que isso tem a ver. 
            - Apenas responda  pergunta. 
    - No. Bem... Bem, uma vez. No sexto ano. Montamos  A Bela Adormecida para a Festa da Primavera. 
    - timo - animou-se David. - Muito bem, a vai a proposta. Vou a uma festa neste final de semana, no interior da Virgnia. Um cliente est promovendo o retiro. 
 difcil explicar, a menos que esteja acostumada a esses eventos. 
    - Sim, eu sei como . Avery sabia como agradar as pessoas certas. 
    - A esposa do cliente  outro ponto. Ela tambm vai estar l. 
    - David, desculpe-me, acho que no estou entendendo. 
    - Ela vai se sentar perto de mim no jantar e, enquanto todos estiverem saboreando. a comida, vai ficar me apalpando. - David esperou Stephanie cair na risada. 
- Por isso, acho que vou aceitar o conselho de Russell e arranjar uma noiva de mentirinha... 
    Ela ficou sria. 
    - Bem, ele tem razo. Uma noiva o deixaria indisponvel. 
    David assentiu. 
    - A est o problema. Eu no tenho uma noiva. Ento, a vai a minha proposta. Voc precisa de cinco mil dlares, eu preciso de uma atriz. Parece vivel para 
voc? 
    Stephanie empalideceu. 
    - Voc quer dizer, voc quer que eu... Est brincando! 
    - Nunca falei to srio. 
    - No! Eu no seria capaz... 
    - Claro que . Tudo o que tem a fazer  fingir que voltou ao sexto ano da escola. 
    - No vai dar certo. 
    - Pense nisso como um efeito colateral do emprstimo, se quiser.  
    - David,  loucura. Quer que eu v a essa festa e, ainda por cima, divida a cama com voc? Pois se estiver... 
    - Meu motivo  auto-proteo exclusivamente, Scarlett. O marido de Mimi  um bom homem. No merece saber que a mulher dele flerta quase diante do nariz dele. 
No  to difcil fingir que somos amantes, ? 
    - David, isso  loucura. No pode esperar que... 
    Ele inclinou a cabea e beijou-a. S houve contato labial, mas Stephanie sentiu o corao aquecido. 
    David endireitou-se sem deixar de encar-Ia. 
    - Diga que vai comigo - incentivou, e aguardou at que ela, com uma voz quaseirreconhecvel, dissesse que iria. 
    
    
    CAPITULO DEZ
    
    A manso Sheraton fazia a casa de Avery Willingham parecer um casebre. David comentara que se tratava de uma casa de fazenda, mas desde quando uma casa de fazenda 
parecia uma aglutinao do palcio de Buckingham com o Taj Mahal? 
    Stephanie olhou para o palacete novamente.  Um  rapaz de jaqueta branca e cala escura vinha apressado na direo deles. - Bem-vinda  manso Sheraton, senhora. 
Posso ajuda-Io com a bagagem, senhor?  
    - Obrigado, mas posso me arranjar sozinho. 
    - Tenho certeza de que sim, senhor, mas... 
    - Seu nome  James, no ? Acho que j passamos por 
    isso da ltima vez em que estive aqui. 
    - Sim, senhor. Quero dizer, o meu nome  James, senhor. 
    E eu... 
    - E voc est aqui para antecipar qualquer desejo meu. 
    - David sorriu e bateu no ombro do rapaz. -O caso, James,  que tive um emprego como o seu quando tinha a sua idade. 
    James olhou para ele. - Teve, senhor? 
    
    - Sim, e quando finalmente juntei bastante dinheiro para arrumar outro emprego, prometi e mim mesmo que jamais delegaria a outra pessoa algo que pudesse fazer 
sozinho. Est me entendendo, Jimmy? 
    
    O rapaz pareceu ainda mais jovem. - Certamente ... senhor. 
            David sorriu e estendeu a mo com uma cdula de dinheiro. - Que bom que nos entendemos, filho. 
    O rapaz arregalou os olhos. 
    - Sim, senhor! E espero que tenha um fim de semana agradvel. O senhor e sua namorada. 
    Stephanie, que assistia  cena com bom humor, franziu o cenho. - Eu no sou ... 
    - Obrigado. - David agarrou o brao de Stephanie. No  mesmo, Scarlett? 
    Eles se encararam e, ento, ela assentiu, rgida. 
    -. 
    David sorriu. 
    - Vejo voc por a, Jimmy - dispensou, e caminhou para a entrada do palacete ainda segurando Stephanie pelo brao. 
    - No precisa me agarrar - avisou ela. - No vou fugir. 
    - Voc no vai convencer Mimi Sheraton de que temos um compromisso se ficar amuada toda vez que algum se referir a ns como casal.
    - Ele disse ... James disse. 
    - Que voc era minha namorada. 
    - , mas eu no sou.  
    David parou, largou as bolsas de viagem e fez com que Stephanie o encarasse. 
    - Vamos estabelecer as regras bem aqui, Scarlett. Voc concordou em fazer o papel de minha noiva. 
    - Eu entendo. Isso no significa S no gostei do jeito como ele disse. Como se eu fosse sua sua... 
    - Minha o qu? 
    - No sei. - Stephanie no sabia mesmo. O que o rapaz dissera era to terrvel? 
    - Ele fez parecer que ramos amantes - traduziu David. 
    Stephanie enrubesceu.  
    - Acho que sim. E no foi isso o que combinamos. 
    - Entendo. 
    - Espero que sim, David, porque... 
    - Estamos quase no sculo vinte e um, Scarlett, e somos ambos adultos. Se, estivssemos mesmo noivos, garanto a voc, j seramos amantes. 
    - Felizmente para mim, ns no somos realmente nada. 
    - Oua, Scarlett ... 
    - David! David, aqui! 
    David olhou ao redor. Stephanie tambm. Uma mulher ruiva, maquiada e sorridente acenava da varanda. 
    - Doura, corra aqui para que eu possa dizer al direito! 
    Stephanie contraiu o lbio. - Doura? 
    - Exatamente - confirmou David, sem mover a boca. - E, se acha que a Mulher Maravilha se detm facilmente, enganou-se. 
    - Eu no vou dormir com voc - avisou Stephanie. 
    -  uma ameaa, Scarlett? 
    -  um fato, Rhett. 
    - David? - berrou Mimi. - Vai me fazer descer? Sabe como o sol prejudica a minha pele, doura. 
    Stephanie ergueu uma sobrancelha. 
    - Vamos l - avisou David, sombrio. 
    - No - protestou Stephanie. - David ... 
    Mas ele j a abraava. 
    - Sorria - instruiu. - Finja que est gostando. - E cobriu-lhe os lbios com a boca. 
    Finja, dissera... mas ela no tinha que fingir. No com o corao acelerado, no com a terra girando sob seus ps a ponto de ter que se agarrar a David para 
manter o equilbrio. - Est vendo? - indagou ele, quando acabou o beijo. Para ele, era como se houvessem apertado as mos. - Voc pode desempenhar o seu papel, se 
se concentrar. 
    Ele pegou as bolsas e tomou-lhe a mo, a presso dos dedos enviando uma mensagem clara. Se a penalidade era ser beijada, ser que ela queria mesmo resistir? 
    Mimi Sheraton era toda sorriso ao recepcionar David. Beijou Stephanie no rosto, mas deixou claro que ela era to bem-vinda quela casa quanto fora na casa de 
Ave Mimi! - identificou David, e acenou de volta. 
    Mimi tentou ser sutil. Postando-se entre os dois, levou-os pelo brao at o salo, fazendo o papel de anfitri, tagarelando sem parar ao longo da ampla escadaria. 
    No topo, Mimi voltou-se para Stephanie. 
    - Precisa me contar, querida. Onde conheceu esse homem maravilhoso? 
    - Temo que ter que perguntar ao prprio - desconversou 
    Stephanie, desinteressada. 
    - Foi de repente, no foi? - Mimi enganchou o brao novamente no dela e tomou o corredor. - Quero dizer, h quanto tempo se conhecem?  
    Stephanie olhou para David, em busca de ajuda, mas ele parecia concentrado no padro do tapete que se estendia at onde a vista alcanava. 
    - Voc deve ser o motivo do sumio de David das festas nas ltimas semanas - comentou Mimi, respondendo  prpria pergunta.  Voc sabe, querida, vai ter muita 
mulher a atrs de voc. At eu, uma mulher  casada e feliz, fiquei, atnita quando David me ligou e contou a novidade. 
    Stephanie riu alegre. 
    - Vai me defender, no , Mimi? Como mulher casada e feliz. Mimi riu. 
    - Claro! Ah. Chegamos. O quarto azul para voc, David, doura. - Ela inclinou-se na direo dele e bateu os clios.  Estou do outro lado do corredor, lembra-se? 
    David sorriu, educado.  
    - Como poderia me esquecer? 
    - E a sua namorada... 
    - Noiva. 
    - Noiva. Claro. Foi o que quis dizer. Ela vai ficar no quarto rubi, do outro... 
    -No. 
    O sorriso de Mimi desabou. - No? 
    David puxou Stephanie para seu lado, segurando-a pelos ombros. 
    - Scarlett e eu no queremos ficar separados, nem por uma noite. No , querida? 
    - Scarlett - repetiu Mimi, rindo, - Que charmoso! 
    - Charmoso - repetiu Stephanie, com os dentes cerrados. 
    - Claro que no queremos ficar separados, amor. Mas, se a nossa anfitri planejou assim. 
    - Ento, temo que ela ter que fazer um remanejamento. 
    - Ele olhou para Mimi. - No h problema, h? 
    Mimi limpou a garganta. 
    - Bem... bem, suponho... Scarlett... Quero dizer, Stephanie pode ficar com o quarto ao lado do seu. 
    - H interligao? 
    Stephanie sentiu vontade de apagar o sorriso de David. 
    - Realmente, no  necessrio... 
    - , sim - teimou David, e beijou-a. 
    Mimi emitiu um som abafado.  
    - Coquetel em uma hora - avisou, e sumiu pelo corredor. 
    Stephanie abriu a bolsa de viagem. 
    - Eu vou para casa - murmurou. - Mentiroso - definiu, ao pensar na conversa de David sobre querer manter Mimi a distncia. 
    Sentou-se na beirada da cama. Bem, Mimi parecia mesmo muito impertinente, mas ele no tinha que beij-Ia daquela forma, dando a entender que iam... que iam... 
    Ele se importava com o que as pessoas iriam pensar? Stephanie deitou-se sobre os travesseiros. Claro que se importava. Ele queria que todos pensassem exatamente 
o que Mimi estava pensando. Aquele era o motivo de toda a encenao. E no tinha o direito de reclamar. Concordara com aquele jogo estpido. 
    David estava emprestando-lhe cinco mil dlares para continuar com a farsa. Ora, a quem queria enganar? Ele estava dando-lhe o dinheiro, porque ela provavelmente 
levaria cem anos para poupar essa quantia. 
    Oh, que trapalhada. Odiava o jeito como Mimi Sheraton a olhava... 
    Seja honesta, Steffie. O que voc odeia de verdade  se entregar toda vez que David a beija. 
    Sentou-se. S havia uma coisa a fazer. Teria que dizer-lhe que aquele acordo ridculo estava acabado. No iria mais fazer o papel de noiva dele. 
    E nada de cinco mil dlares. O que seria de Paul? 
    Paul nunca lhe dera as costas, nem mesmo quando a me os abandonou. No que o desaparecimento de Bess fizesse alguma diferena. Bess nunca dera muita ateno 
a eles e Stephanie sempre fizera todo o servio de casa, desde que se conhecia como gente. 
    Paul sim, fora obrigado a crescer rpido. Largou a escola e comeou a trabalhar, embora fosse onze meses  mais novo do que ela.  
    Como poderia te-lo abandonado aps o acidente? No fora 
    bem um acidente. O carro derrapou numa noite, de chuva e colidiu com uma rvore. Paul levou uma pancada na cabea e, semanas depois, comeou a sentir os efeitos. 
Tinha dores de cabea, ouvia rudos e, s vezes, no sabia quem ela era, ou onde estava... 
    - Prometa-me, Steff - implorava ele, quando ficava lcido. 
    - Prometa que nunca vai contar a ningum o que aconteceu comigo. Eles vo dizer que  porque sou um Horton, porque sou filho de Bess Horton. 
    Ento, ela prometera. E nunca faltara com a palavra... exceto quando, desesperada, contara a Avery Willingham. 
    Stephanie levantou-se. Paul precisava de sua ajuda. No lamentava ter-se casado com Avery, pois ele prometera trata-Ia como filha. 
    O desafio atual era mais difcil. Fingir que estava apaixonada por David exigia demais. No. David era... ele era... Qualquer mulher acharia fcil ama-Io. Ele 
era maravilhoso, tudo o que ela sempre desejara. 
    Stephanie prendeu a respirao. No, pensou, no, por favor, no... 
    - No - repetiu em voz alta, e correu para a porta que fazia a conexo entre os quartos. 
    No podia continuar com aquilo. Pegaria um trem, iria at a clnica em que o irmo estava internado e imploraria aos mdicos.  diretora. Eles entenderiam. Precisavam 
entender, pois ela no podia continuar com aquilo, no podia passar o fim de semana com David, fingindo ser sua amante. 
    - David? - chamou, e bateu na porta. - David, voc est a? - Bateu novamente, aguardou e, ento, cuidadosamente, abriu a porta. 
    Havia roupas largadas na cama. Mais adiante, a porta do banheiro estava apenas encostada. Ouviu o som de gua corrente. 
    Ele estava tomando banho. Bem, esperaria at... at o qu? 
    At ele aparecer nu no quarto? . Sentiu o corao na garganta. Podia imaginar a pele dourada, brilhando com as gotas de gua, o cabelo solto ao redor do rosto. 
Ele devia ser magnfico de se ver, os ombros largos, os msculos definidos... 
    Stephanie correu de volta a seu quarto e trancou a porta. 
    - Chambers, seu sortudo! - O mais recente e mais jovem Juiz da Corte Suprema parou e bateu no ombro de David. E onde descobriu esse tesouro? 
    - Segredo - brincou David. Sorriu e tomou um gole do conhaque. 
    Parecera um plano perfeito. Contaria a Mimi que estava comprometido e apresentaria Stephanie  deixando claro que estava fora de circulao. 
    Que grande idiota. 
    Beijar Stephanie no fora uma atitude sbia. Fizera isso apenas para amansar Mimi, mas acabara tendo que tomar uma ducha fria. Isso tambm s contribuiu para 
alimentar suas fantasias e imaginar Stephanie no chuveiro com ele... 
    Aprontara-se e fora at a porta de comunicao. 
    - Pronta? - indagara, simptico, quando ela abriu a porta... e aquilo fora o fim para ele. V-Ia deslumbrante daquele jeito neutralizara o efeito benfico do 
banho frio. 
    Ao v-Ia, entendeu que no somente Mimi notaria sua presena, mas tambm todos os homens no recinto. - Como estou? - indagou ela, indiferente. 
    - Excelente... 
    O instinto primitivo sugeria agarra-Ia e leva-Ia para a caverna. O ser civilizado instrua que no era preciso uma caverna. A cama resolveria o problema. 
    Meia hora depois, entendeu que cometera um equvoco. Stephanie aplicara um efeito de conteno em relao a Mimi. Tomou outro gole do conhaque. No, o equvoco 
fora achar que poderia levar Stephanie a um ambiente cheio de homens, solt-Ia e no enlouquecer com as conseqncias. 
    Os homens cercavam-na como abelhas ao redor da flor mais doce do jardim. Ela no sabia que devia fazer-lhe companhia exclusiva?  
    O congressista sussurrou-lhe algo ao ouvido. Ela lanou a cabea para trs e riu. O jornalista poltico tambm fez um comentrio. Ela sorriu e voltou-se para 
ele, aproveitando para esquivar-se da mo do congressista  sua cintura: Raios, no haveria fim quela pouca-vergonha? Um ator de cinema, loiro e com sorriso brilhante, 
aproximou-se e tomou-a pelo brao.  Disse~lhe algo ao ouvido e ela assentiu. Os dois tomaram a direo do terrao. 
    Basta, pensou David, e aproximou-se de Stephanie. 
    - David, conhece Gary? David olhou para o ator. -No. 
    - Bem, deixe-me apresent-lo... 
    - Stephanie  posso falar com voc um minuto? 
    Ela franziu o cenho. 
    - Sim, mas, primeiro... 
    - Eu quero conversar com voc. 
    - Eu entendo, David, mas... 
    - Esquea o "mas", Scarlett. - David passou-lhe o brao pela cintura e conduziu-a. - Voc vem comigo, e agora. 
    Ele viu a expresso de protesto, mas ignorou-a. Levou-a para o terrao. Assim que chegaram, ela conseguiu desvencilhar-se. 
    - O que significa esta cena? 
    -  a senhora que est dando show. 
    - No sei do que est falando. - Ela saiu do passeio de pedra e passou para o gramado, com David nos calcanhares. 
    - Como se atreve a me tirar da festa daquele jeito? 
    - Eu no a "tirei", embora tivesse vontade. - David agarrou-lhe o brao e obrigou-a a encar-lo. - Desde quando um homem tem que implorar por um minuto da ateno 
da noiva? - Eu estava conversando com uma pessoa, ou voc no notou? Gary estava me contando um episdio engraado que aconteceu no set de filmagem e... 
    - Gary... Ele  mesmo cmico - ironizou David. 
    - Para o seu conhecimento, Gary no apenas atuou no filme como dirigiu-o. E escreveu o roteiro. Alis, quero lembr-Io de que no sou sua noiva. 
    - Voc , durante o fim de semana. 
    - E que equvoco lamentvel - resmungou Stephanie, e soprou uma mecha de cabelo da frente dos olhos. 
    David estreitou o olhar. - O que quer dizer? 
    - Quero dizer que concordei em ajud-Io, no em tornar-me sua propriedade. Agora, se isso  tudo... 
    David agarrou-a pelo pulso quando ela fez meno de ir embora. 
    - Onde pensa que vai? 
    - Para o meu quarto, arrumar os meus pertences. Decidi voltar para a cidade. 
    - De jeito nenhum, Scarlett. Fizemos um acordo, lembra-se? 
    - Foi um mau acordo e estou cancelando-o. 
    - Voc no desistiu quando Avery Willingham comprou os seus servios. 
    Ele a viu empalidecer e praguejou contra si mesmo por ser to idiota. No era aquilo que queria dizer. A verdade era que no sabia o que queria dizer. S sabia 
que era mais seguro ficar zangado do que admitir que estava atacado porque ela o ignorara a noite toda. 
    
    - Tem razo. No desisti. Sou uma prostituta honesta, David. Vendi-me para voc e para ele e, nas duas vezes, obtive exatamente o que merecia. 
    - Raios - grunhiu ele. Agarrou-a pela cintura e trouxe-a mais para junto de si. - Eu quero respostas. Por qu, Scarlett? Por que se casou com um homem que desprezava? 
    - No  o momento. 
    - Ora, se . Conte-me a verdade. 
    - Por favor. Solte-me, David. Ambos sabemos que foi um erro. Eu vou arrumar a mala e dar Uma desculpa a Mimi... 
    - Scarlett. Olhe para mim. 
    Ela balanou a cabea, mas ele a forava a  obedece-lo. 
    - Eu preciso saber o motivo. - Pensou ver os olhos dela midos de lgrimas e varreu-lhe os lbios. - No me exclua, Scarlett. Por favor, Deixe-me ajuda-Ia. 
    Seguiu-se um longo silncio, as lgrimas rolaram: 
    - Eu tenho um irmo - revelou Stephanie, num sussurro. 
    - Meu irmozinho. Ele sempre foi...  ele significa tudo para mim, David. Ele  tudo, o que eu tenho,  tudo o que j tive e...  e ele est doente. Muito doente. 
Precisa de cuidados especiais, que custam uma fortuna. Avery sabia. Nesse caso, ele foi maravilhoso. Ajudou-me a encontrar o lugar certo para Paul. At me emprestou 
dinheiro para o tratamento, mas, a cada ano, ficava mais e mais caro. Avery disse... ele sugeriu... 
    Ela estremeceu e David abraou-a. - Est tudo bem - consolou . 
    - No est. Voc no entende? Eu me casei com Avery porque ele disse... ele disse que era a nica forma de garantir o tratamento de Paul. Ele disse que... que 
me trataria sempre como uma amiga. - Estremeceu. - Ele mentiu. Sobre tudo. 
    Sobre tudo. David refletiu sobre aquelas palavras. O que Avery Willingham fizera com ela?' 
    - Amor. - Ele a abraou com mais fora e aninhou-lhe o rosto junto ao peito. Ela soluava forte. - Amor, no chore. 
    Ela afastou-se e ergueu o olhar. 
    - Eu devia ser a anfitri. A companheira. A secretria particular. Ele disse... ele disse que nunca tocaria em mim. `Respirou fundo com dificuldade. - Mas mentiu. 
Aps algum tempo, ele... ele veio a meu quarto... 
    - Est acabado agora, Scarlett. Tente esquecer. 
    - E ento, ele morreu. -E Clare apareceu, e riu, e me disse que Avery nunca tivera inteno de me deixar nada, que ele me manteve por mais tempo do que desejara, 
mas s porque adoecera... 
    David beijou-a. 
    - Sei o que est pensando de mim - sussurrou Stephanie. 
    - Mas confiei em Avery. E no podia ver outro modo de... 
    - Eu acho que voc  uma mulher corajosa e leal. E eu sou um idiota por faz-Ia chorar. 
    - Nunca deveria ter vindo com voc aqui. J foi demais voc ter me arranjado um emprego e uma moradia. Mas sair com voc... Eu no teria dormido com voc, David. 
    - Eu sei. 
    - A minha situao com Avery, por mais errada que fosse, era diferente. 
    David assentiu. 
    - Voc era esposa dele. 
    - Sim. E era uma boa esposa, por mais estranho que possa 
    parecer. Ento, voc entende por que no posso continuar com o nosso acordo. - Ela engoliu em seco e tentou no pensar no dinheiro de que precisava, nem em como 
seria nunca mais ver David: - No estou mais  venda. 
    Ele acariciou-lhe o rosto com o polegar. 
    - Eu sei.  por isso que quero me, casar com voc. 
    
    
    CAPTULO ONZE
    
    Quem estava mais atnito, Stephanie... ou ele  mesmo? 
    Mesmo assim, pronunciadas as palavras, David sabia que faziam sentido. 
    Evitara a verdade por anos, mas l estava, bem  sua frente. 
    Era hora de ter uma esposa. 
    Mary e Jack Russell tinham razo. Um homem em sua posio precisava de uma mulher, mas no podia ser qualquer uma. Tinha de ser uma mulher capaz de entender 
os aspectos sociais e profissionais de seu ramo de atividade. Capaz de entreter os clientes, promover jantares e sentir-se  vontade com todos, independente dos 
cargos e influncias no cenrio de Washington. 
    No que esperasse isso de Stephanie. Nunca fora assim com Krissie e no era tolo o bastante para achar que seria diferente dessa vez, mas, pelo menos, aquele 
acordo seria honesto. 
    Aprendera com os erros. Ao se casar pela primeira vez, jovem e tolo, escolhera uma esposa com o corao. Agora j sabia. Escolher uma esposa era como escolher 
um carro. Sempre comprava carros esportivos tanto pela beleza e desempenho quanto pela qualidade. 
    Stephanie era perfeita. Era bonita, inteligente, entendia o que se esperava dela f:! no tinha mais iluses sobre o casamento  do que ele. 
    Ele precisava de uma esposa. Ela precisava de um provedor. 
    Era uma combinao que podia dar certo. Restava-lhe convencer Stephanie, que o olhava como se ele houvesse sugerido um fim de semana em Marte.
    - Voc disse... voc me pediu em casamento, David? 
    - Sim, pedi - confirmou ele,e calmamente. 
    - Em casamento? - repetiu ela, desnorteada. - Voc e eu? 
    - Isso mesmo, Scarlett. Voc e eu. 
    -  brincadeira, no ? - Stephanie comeou a sorrir e, ento, leu a resposta em seu olhar. - Oh! Voc est falando srio! 
    - Estou, sim. 
    - Por qu? - Ela hesitou. - No est dizendo... no quer dizer... Voc no... 
    - Se estou apaixonado por voc? - Ele sorriu e balanou a cabea, como se ela estivesse sido espirituosa. - Claro que no. 
    - Bem,  um alvio... 
    Stephanie sorriu comedidamente, imaginando por que seus batimentos cardacos estavam to acelerados. 
    - Amor no entra nesse negcio. - Ele cruzou os braos e ficou mais srio. -  isso o que torna a minha proposta to razovel. 
    - Razovel? - Ela balanou a cabea. - Para voc, talvez. Por que deveramos nos casar? Eu no entendo. 
    - Vamos caminhar - convidou ele, e tomou-a pelo cotovelo. 
    Ela no se mexeu e ele forou-a. 
    - Tudo bem - declarou, quando j estavam longe do palacete. - Deixe-me colocar de uma forma que voc possa entender. 
    - Por favor. 
    - Estou tentando explicar os benefcios do casamento. 
    Ele pigarreou. - No  fcil ser solteiro em Washington. 
    Stephanie sorriu. 
    - Voc  atacado por tipos como Mimi Sheraton?  
    - Sei que parece engraado, mas, creia-me, Scarlett, no . E tambm h tipos como Annie Cooper e Mary Russell, a esposa de Jack; que so notoriamente casamenteiras. 
- Ele suspirou. - Aps algum tempo; voc se aborrece. 
    - Com certeza - comentou Stephanie,  educada. David franziu o cenho. 
    - Oua, sei que no estou sendo claro... 
    - No, est indo bem. Voc quer uma esposa, para mante-Io a salvo de casamenteiras e predadoras. Ou h mais? 
    - No  engraado, Scarlett. Estou falando srio. 
    - Estou vendo. Continue. Voc disse que havia mais. 
    - Bem, h tambm as minhas responsabilidades profissionais. 
    - J estou trabalhando como sua secretria, David. O que mais poderia... 
    - Certo. Sei que isso parece... um... 
    - Negcio. Um negcio razovel, como disse. 
    - Raios! Por que tem que tornar tudo difcil? Estou falando do tipo de vida que levo. Festas. Jantares. Todo tipo de atividade... 
    - E voc precisa de uma esposa para coordenar tudo isso. 
    - Exato! - confirmou David, com um sorriso de alvio. - Isso mesmo. 
    - Ento voc disse para si mesmo: voc precisa de uma esposa. Uma que prepare jantares,  converse socialmente, que saiba o jogo. Bem, h Stephanie Willingham. 
Ela j trabalhou nisso antes. 
    - No, no foi assim. 
    - Claro que foi. Pense nas vantagens, David. No seria preciso perodo de treinamento, certo? 
    - Raios, Scarlett... 
    - No. No, eu realmente entendo. Entendo de verdade. E seria idiota se entrasse nesse jogo novamente. 
    - No estou sugerindo que repita o seu primeiro casamento. Eu no sou Willingham. Ainda no percebeu isso? 
    - Tinha esperana de que sim. Mas a est voc, fazendo-me a mesma oferta. 
    - No estou, no! 
    - Est! No h nenhuma diferena. 
    - Claro que h. 
    - Cite uma. 
    - Para comear, eu farei Jack preparar um contrato pr-nupcial, garantindo o seu bem-estar para o resto da vida, no importando o que acontea comigo. 
    - No preciso do seu dinheiro.  para... 
    - O seu irmozinho. Eu sei. S estou salientando que voc no ficaria sem nada, se .eu vier a faltar. E no vai ser uma esmola, pingada ms a ms... - Ele realizou 
um clculo mental. - Vou depositar quinhentos mil dlares em sua conta na segunda-feira. 
    Stephanie encarou-o. Meio milho de dlares? Ele estava falando srio! Mas por qu? 
    - Por qu? Por que faria isso, David? Voc no  o tipo que precisa... comprar  uma esposa. 
    "Por qu?", pensou ele. Era uma boa pergunta. Poderia responder sem se analisar profundamente? 
    - Porque voc e eu podemos ser sinceros sobre o que cada um espera do casamento. 
    - Voc quer um relacionamento to calculista? 
    - Eu j fui casado. Ns estvamos apaixonados, ou assim pensvamos. Foi um desastre. 
    - O que aconteceu? 
    David recordou-se do momento em que vira Krissie na cama com o amante. Ainda  doa. O adultrio, o divrcio... mas  sentira-se devastado mesmo com a traio. 
    - Aconteceu que tnhamos idias diferentes sobre o casamento. 
    - Muitas pessoas se separam,  David. E elas no acabam tentando comprar  um cnjuge. 
    - Voc est sendo obtusa? No estou tentando comprar voc! 
    - Mesmo? Bem, foi o que me pareceu. 
    - Ento, no est prestando ateno. Estou propondo um casamento no qual cada um de ns contribui com algo de valor. - O que eu entendo  que no vou cometer 
o mesmo erro duas vezes. - Stephanie recuou um passo e ergueu a cabea. - Obrigada pela oferta, David, mas no estou interessada. 
    - Scarlett, voc no est raciocinando; Voc... 
    - Bolas! - Ela avanou contra ele e golpeou -o,  revoltada. 
    - Um casamento precisa de sentimentos! Eu preciso de sentimentos. Preciso... 
    - Eu sei do que voc precisa - informou David, e envolveu-a nos braos. 
    Os braos dele eram fortes. Ela lutou at sentira batida errtica do corao e, ento, admitiu a verdade para si mesma. Estava lutando no contra David, mas 
contra o que ela mesma sentia. Lanou os braos ao redor do pescoo dele e beijou-a com todo Q desejo reprimido. 
    - Case-se comigo - sussurrou ele. 
    Ela hesitou, e David beijou-a novamente. 
    - Scarlett. Apenas respire fundo e diga sim. Stephanie encarou-o e respirou fundo.
     -Sim. 
    
    Partiram da manso Sheraton sem se despedir e rumaram para Georgetown. 
    Entraram na casa de David.  Stephanie podia ouvir as batidas do prprio corao. Estava trmula. Acusara David de insano, mas ela  que havia perdido a cabea. 
Como pudera? Ela, dentre todas as pessoas. Por que concordara com aquele casamento? Por que concordara em ser esposa de um estranho? No podia levar adiante aquele 
compromisso. Sem dvida, nutria algum sentimento por David, mas basear-se apenas nisso...  basear-se  no que uma mulher deveria sentir quando um homem a acariciava 
... 
    - David, eu acho... 
    - No ache nada - interrompeu ele, abraando-a. Beijou-a repetidas vezes, aprofundando o ato a cada investida. Por fim, ela agarrava-se aos ombros. 
    - Scarlett - sussurrou, e ergueu-a nos braos. 
    Stephanie apoiou-se contra ele e viu, no vidro de uma janela, o reflexo de sua expresso de desejo. 
    - Nunca desejei uma mulher tanto quanto voc, Scarlett. 
    - David. - Ela engoliu em seco - Eu no posso... eu no sou... no gosto muito de sexo. Voc tem o direito de saber. Eu vou decepciona-Io. 
    Ele a beijou. - Nunca - sussurrou, e levou-a para o quarto. 
    Stephanie nunca estivera no quarto de David at aquela noite. Pelo pouco que enxergava, pelo pouco que podia avaliar, era um ambiente austero. 
    David pousou-a, devagar, sobre a cama. 
    - No h nada a temer, Scarlett.  Tomou-lhe o rosto, inclinou a cabea e varreu-lhe suavemente os lbios. 
    - No estou com medo. Sei que no vai me machucar. No era verdade. Ele iria machuc-Ia. No fisicamente. Sabia. No era como Avery, que sentia prazer com a 
dor dos outros. Mas sentia-se vulnervel a David sob outros aspectos. Aspectos que resultariam em uma dor muito mais profunda, pois ela sentia... sentia... 
    - David. - Ela o deteve. - Isso  um erro. No devemos nos casar. 
    - Ns podemos ser felizes- insistiu ele, mal-humorado. -J pensou nisso? 
    Ela queria. Oh, como queria. 
    David lia em seu olhar a esperana, o desejo - Scarlett? 
    Ela se atirou em seus braos. 
    Ele a despiu devagar, expondo-lhe a pele a seus lbios e mos, centmetro por centmetro. Era mais bonita do que imaginara, com seios firmes e redondos, cintura 
fina, quadris estreitos. Tinha uma textura de seda; um gosto de baunilha e perfume de alguma flor extica. Quando a viu completamente nua em seus braos, j estava 
ofegante. 
    - Scarlett... 
    Com a ponta do dedo, traou-lhe o pescoo, a regio entre os seios e mais abaixo ... at chegar aos plos macios que guardavam sua feminilidade. 
    - Voc  to linda, Scarlett. To perfeita... 
    David movimentou a mo entre as coxas de Stephanie. Ela reteve a respirao e agarrou-lhe o pulso. 
    - David. Eu no... Podamos puxar a coberta?  - Est com frio, amor? Eu vou aquec-Ia. 
    Amor. Ele a chamara de "amor"! 
    - No. - Ela balanou a cabea. - No estou com frio, David: Eu...    o jeito como voc olha para mim. Eu me sinto...  envergonhada.  
    Ele sorriu. -  porque voc est nua e eu, no. Mas podemos consertar isso. 
    Ele se levantou, sem deixar de encara-Ia, e tirou a roupa. Seu corpo era bonito e musculoso. Mesmo a regio assustadora, a regio da masculinidade, era bonita. 
Ele deitou-se a seu lado, o cabelo solto servindo de cortina para seus rostos quando ele a tomou nos braos. 
    - Melhor assim? - sussurrou. 
    Ela assentiu. Apele dele era quente, o corpo, rgido. Sentiu a ereo junto ao ventre e esperou a excitao desaparecer e o pnico se instalar, mas nada disso 
aconteceu. Pelo contrrio, a pulsao pareceu descer s coxas. 
    - David, voc  to bonito... - murmurou. Ele riu, suave. 
    - Um homem, bonito, doura? 
    Stephanie prendeu a respirao quando ele abocanhou-Ihe um mamilo. 
    - Isto  bonito - sussurrou ele, e beijou-a nos seios, no ventre. - E isto. - Movimentou-se mais uma vez e ela gemeu ao sentir a respirao dele entre suas coxas. 
- E isto - prosseguiu, a voz rouca. - Abra-se para mim, Scarlett. 
    Ela obedeceu.  
    J ao primeiro beijo ntimo, arqueou o corpo. Com certeza, teria flutuado aos cus' se ele no a mantivesse firme pelos quadris. Quando estava voltando  terra, 
ele posicionou-se acima dela e beijou-a nos lbios. Ela experimentou o gosto do  milagre da paixo partilhada. 
    - David - sussurrou, num misto de espanto e alegria. David, por favor. 
    - Sim - confirmou ele, e penetrou-a, tentando ser gentil, querendo fazer com que ela sentisse no apenas seu smen, mas seu corao. 
    Ela gritou de prazer e moldou-se ao corpo musculoso. Sentindo que era hora, David liberou o sentimento controlado por tanto tempo. Mergulhou no calor de Stephanie 
e permitiu-se, finalmente, encontrar a felicidade. 
    
    Stephanie disse que sabia cozinhar.   
    - Feijo e arroz, batatas, peixe frito. - Ela olhou por sobre o ombro e sorriu. - S que no estou vendo nada disso dos armrios, David. 
    David devolveu o sorriso. Era quase aurora.  Estavam na cozinha, Stephanie junto ao fogo e ele, sentado na cadeira ao contrrio, o queixo pousado sobre os braos 
cruzados. Haviam acordado com fome. Caso contrrio,   no teriam sado da cama. Stephanie usava a camisa branca que ele descartara ao chegar em casa. S a camisa, 
mais nada. 
    - No cobre muita coisa, David - reclamara ao vestir a pea. 
    timo, pois assim ele podia admirar-lhe a curva dos seios, a mancha mais escura dos plos macios no baixo ventre. Devorou com o olhar as pernas longas e os quadris 
quando ela se estendeu para pegar algo no armrio. 
    Como tinha sorte! Espantava-se por ter encontrado aquela mulher. Ela era tudo o que um homem podia esperar. Bonita. Inteligente. Capaz. E sexy o bastante para 
tirar o flego, embora no se desse conta disso. 
    No gosto muito de sexo, dissera ela, mas fora incrvel na cama.Acolhedora. Voraz. Generosa. Tudo o que ele fizera, ela quis devolver na mesma medida. S de 
pensar em tudo aquilo, ficava excitado. 
    - Bacon e ovos? 
    David piscou. Stephanie encarava-o interrogativa. - David? 
    Ele respirou fundo. 
    - Est timo. Vou fazer torradas e caf, enquanto isso. David concentrou-se para recuperar o equilbrio. Aquilo no era amor, era luxria. 
    - Vou pegar aquela vasilha - comentou Stephanie, e estendeu-se para alcanar a prateleira superior. 
    David levantou-se derrubando a cadeira. - Esquea o desjejum - decidiu. 
    Ela largou o que tinha nas mos. Ento, lanou-se aos braos dele e reiniciaram ali mesmo outra seo de amor. 
    David contou a novidade a Jack no almoo de segunda-feira. 
    - Voc enlouqueceu -- concluiu o colega. 
    - Talvez. 
    Jack provou o martini. - Que maravilha, eu digo ao noivo que ele  louco e ele diz que "talvez" seja louco. 
    - Eu tambm estou feliz. 
    - Pelo menos. Mas eu repito, voc est louco. A mulher vai ganhar uma conta bancria. O que voc vai ganhar? 
    - Uma esposa. Pergunte a Mary. Ela vai dizer que  um negcio equilibrado.  
    - J verificou a histria dela? A histria do irmo? 
    - No. Eu lhe disse; tudo aconteceu muito rpido. 
    - Pense no passado dessa moa, David. Ela j se casou por dinheiro uma vez. Agora, vai repetir a dose.  At onde sabe, o irmo pode ser o vcio do jogo, drogas. 
    - Ela no  viciada em nada, Jack. 
    - Bem, ento, talvez ela tenha um amante perdulrio. 
    - Veja o que diz. Na semana que vem,  a essa hora, Stephanie ser minha esposa. 
    Jack no se intimidou. 
    - Oua, telefone para Dan Nolan. Mande-o fazer uma investigao. Estou surpreso por voc ainda no ter feito isso. 
    David estreitou o olhar.  Stephanie, sustentando um amante? 
    Nunca imaginara... 
    Levantou-se rpido, deixando algumas cdulas sobre a mesa. - Tenho uma reunio - desculpou-se, quando Jack ia protestar. - E estou atrasado. 
    - Que tipo de pessoa diz "talvez", quando acusada de insanidade? - indagou Jack  esposa, tarde da noite. 
    Mary bateu na mo do marido. 
    - O tipo que no quer admitir que est apaixonado. Jack desdenhou. 
    - No seja ridculo. Ele est encantado. 
    - Ele est apaixonado - definiu Mary. - Tudo o que podemos fazer  esperar que ele no se machuque. 
    Naquela tarde, antes de deixar o escritrio, Stephanie telefonou para a clnica em que o irmo estava internado. A enfermeira atendeu. Paul no queria falar 
com ela. Estava deprimido. Stephanie quase riu. Paul estava sempre deprimido, mas ela entendia. Aquele estado era pior do que o normal. 
    - Telefone-me se algo acontecer - pediu, desligou o aparelho e ficou olhando para a parede. 
    Paul estava indo to bem. Seria outra recada? No importava. Ainda tinha que contar mais sobre ele a David. Logo, ele seria seu marido e estaria pagando o tratamento 
de Paul.  No queria segredos entre ela e o homem que... o homem que ... 
    - Pronta? 
    Ela ergueu o olhar. David estava parado junto  porta. - David? O que foi? Algo errado? 
    David hesitou. Sim, algo estava errado. Andara em crculos pelo escritrio o dia inteiro e, finalmente, no final da tarde, decidira ligar para Dan Nolan e encomendar 
uma investigao sobre Stephanie. Se ela tivesse um irmo. Se as suspeitas de Jack no se confirmassem... 
    Basta! 
    - No. Apenas foi um dia longo. Vamos para casa. Um silncio incmodo pairou entre eles durante e aps o jantar. Finalmente, David ps de lado os papis que 
estivera tentando ler e encarou Stephanie. 
    - Scarlett? 
    Ela ergueu o olhar. Ele parecia abatido. - Sim? 
    David pensou no telefonema que dera a Dan Nolan. Lamentava t-Io feito. Tinha perguntas, sim, mas deveria t-Ias feito a Stephanie. Aquela deveria ser uma relao 
honesta. 
    - O que foi, David? 
    Pergunte-lhe, disse a si mesmo. Diga que precisa saber mais sobre seu irmo, que quer conhec-Io... 
    - Nada - declarou, aps um minuto. - S...  tarde. Vamos subir. 
    Ele a despiu devagar na escurido do quarto, adorando os gemidos que ela emitia a cada carcia. As preocupaes foram esquecidas assim que a apertou nos braos. 
Estarem juntos era certo. Stephanie tinha razo. Poderia dar certo... 
    O telefone tocou. 
    - David? O telefone... 
    - Deixe tocar - respondeu ele, mas suspirou, beijou-a gentilmente, acendeu o abajur e atendeu. 
    Stephanie recostou-se nos travesseiros e puxou o lenol at o queixo. David estava voltado para ela, os ombros nus dourados  iluminao. Encarou-a e passou-lhe 
o telefone. 
    -  um homem - comunicou, o semblante insondvel. - No quis dar o nome. Quer falar com voc. 
    Stephanie pegou o aparelho. - Al? 
    Era Paul. A voz dele parecia calma, controlada. Contou que a enfermeira dera-lhe seu novo nmero de telefone. 
    - Ond voc est? - indagou Stephanie. 
    Ele respondeu. A clnica era um centro de tratamento, no uma priso. 
    - Preciso de voc, mana - disse Paul. 
    Ela olhou para David. Ele ainda no demonstrava nenhuma emoo. 
    - Estarei a de manh. Enquanto isso, voc deveria... 
    - Preciso de voc agora. 
    Ela olhou novamente para David. Ento, pegou o bloco de notas e lpis que estavam sobre o criado-mudo. 
    - D-me o endereo - pediu ela, e anotou. - Eu estou indo. - Segundos depois, Stephanie devolvia o telefone. - David?  Eu tenho que ir ver o meu irmo. 
    David manteve o olhar frio. 
    - A esta hora? 
    - Sim. 
    - Por qu? Qual  o problema? 
    - Ele est doente. Oua, eu sei que tem perguntas, mas no quero explicar agora. - Ela ia se levantar, mas lembrou-se de que estava nua e sabia que no ia suportar 
o olhar dele. - Voc poderia... poderia se virar, por favor? 
    David cerrou os dentes. 
    - Tanta modstia, Scarlett - comentou, mas atendeu, e ela levantou-se e vestiu-se rpido. 
    Ouviu um barulho atrs de si. David levantara-se e comeara a vestir-se tambm. 
    - O que est fazendo? Ele a encarou. 
    - No vou deixar que saia sozinha, no meio da noite. 
    - Eu ficarei bem. Vou chamar um txi. 
    - No! 
    Stephanie pensou em Paul, em seu estado de sade precrio, que poderia piorar se estmulos errados o atingissem. 
    - No, David, de verdade. Voc no precisa ir. 
    - Eu sei. Eu quero ir com voc. 
    - Mas eu no quero que v comigo! - As palavras caram entre eles como pedras. Stephanie prendeu a respirao.  David, eu no queria ter falado assim. 
    - O telefone da empresa de txi est programado no telefone de baixo - informou ele, friamente. Ento, foi ao banheiro e fechou a porta. 
    
    O motel parecia um cenrio de filme barato. 
    Paul estava no ltimo quarto, deitado na cama sob os cobertores, com o brao sobre os olhos. Stephanie nunca vira o irmo to mal. Suas roupas estavam largadas 
no cho. 
    - Paul? 
    Ele no respondeu. Ela suspirou, fechou a porta e foi at ele. Ela sabia o que fazer. Iria se sentar a seu lado, aninh-Io nos braos, dizer que o amava, esperando 
que as palavras surtissem efeito... 
    Recordou o olhar zangado de David e sentiu um arrepio pelo corpo. 
    No perderia David. No podia perd-Io, e a deciso no tinha nada a ver com sua necessidade de dinheiro ou com a compatibilidade que tinham na cama. 
    Era hora de admitir a verdade. Estava apaixonada por David e s podia esperar que ele sentisse o mesmo, algum dia. 
    David andava de um lado para o outro na sala. 
    Que raios Stephanie achava que estava fazendo? Sair no meio da noite para ver o irmo doente? E ainda gritara com ele, pois no queria que a acompanhasse. 
    Se fosse mesmo o irmo, pensou sombrio. At onde sabia, Jack tinha razo. No havia irmo nenhum. Devia haver um homem, sim, mas no aparentado. Isso explicaria 
tanta coisa. A necessidade de dinheiro, a tolerncia ao abuso de Willingham. 
    David estacou. Sentiu um frio na espinha. As mulheres mentiam. Krissie ensinara-lhe isso. E no tinham fidelidade. Aprendera de Krissie tambm.  
    Mas Krissie, pelo menos, no se casara por dinheiro. 
    Por que no encomendara uma investigao a Nolan antes de precipitar-se naquele compromisso? Precisava de um motivo... 
    Lembrou-se de que ela escrevera algo no bloco de notas. Subiu a escada correndo e agarrou o bloco. A impresso deixada no papel era clara. 
    - Um motel... Bolas, Stephanie! Pegou o carro e rumou ao local. 
    
    - Paul. Paul, est me ouvindo? - animava Stephanie. Por favor, Paul, converse comigo. 
    Paul emitiu um som abafado. Voltou-se e enterrou o rosto contra o seio dela. 
    - Oh, Paul. Querido, eu o amo. Eu sei que sabe disso. Ela inclinou-se e beijou-o na cabea. - No importa o que acontea, sempre estarei com voc. Eu o amo, 
Paul. 
    A porta abriu-se de repente. O cheiro da estrada invadiu o ambiente. Stephanie voltou-se e viu David. 
    - David?  O que faz aqui? 
    - Que pergunta irrelevante, Scarlett. Pelo menos eu no preciso lhe perguntar o mesmo. Ambos sabemos o que voc est fazendo aqui. 
    - No. No  o que est pensando...  a amante sequer se movia. David piscou forte para aplacar o dio. 
    - No se preocupe,  Scarlett. - Sem saber como, esboou um sorriso. - Ns dois estvamos fazendo um jogo. Voc apenas se descuidou antes de mim, s isso. 
    - Que jogo?  
    - No pensou que eu fosse mesmo me casar com voc, no ?  Ei, um homem faz todo tipo de trapaa para levar uma mulher para a cama, mas casar? Eu no, meu bem. 
No sou idiota como Willingham. 
    Ele voltou-se vitorioso, mas arrasado por dentro, e saiu a passos largos do quarto miservel. 
    
    
    CAPTULO DOZE
    
    No havia lugar mais lindo no mundo do que Wyoming em junho. A noite aproximava-se. As montanhas projetavam sombras purpreas. Um falco de cauda vermelha planava 
silenciosamente sobre o vale  procura do jantar. 
    O cavalo de David fungou e desviou-se para o lado, impaciente. - Calma, garoto - apaziguou David. 
    Puxando as rdeas, retomou a trilha que levava ao vale,  casa. 
    - Estpido - resmungou. 
    Estpido era a palavra. Como definir um homem que evitara um desastre por uma margem mnima? No havia mais motivo para pensar em Stephanie. Ela estava fora 
de sua vida e ele sentia-se agradecido com isso. 
    - Ainda bem que recuperou os sentidos - comentara J ack, quando David informou que cancelara o casamento. 
    Ento, por que no conseguia tir-Ia da cabea? 
    Estava escurecendo. O cavalo conhecia bem a trilha, mas, mesmo assim, David cavalgava com cuidado. Melhor assim. No tinha pressa em voltar para casa. Jantaria, 
elogiaria a comida preparada pela caseira, leria, fingiria trabalhar em algum texto jurdico e, depois, iria para a cama, sozinho, imaginando ter Stephanie nos braos. 
    Franziu o cenho. De onde surgira aquela bobagem? Por que no parava de pensar nela? 
    O cavalo relinchou e David percebeu que tinham sado da floresta. A casa aninhada junto  encosta de uma montanha parecia bem cuidada e aconchegante. 
    Precisava mesmo era de algum para partilhar aquela vista, aquele conforto. No. No algum. 
    Stephanie. 
    Remexeu o maxilar. Era loucura. No precisava dela. Por que precisaria? 
    Nenhum homem gostava de bancar o idiota e era exatamente isso o que ela fizera com ele. Admitira a Jack. 
    - Ela me fez de idiota. 
    - Tentei alert-Io, David. 
    Sim. Oh, sim. Jack tentara alert-Io, mas ele estivera to seguro. To convencido ...  
    O qu? O que acreditara ter encontrado? Uma mulher honesta? Stephanie nunca fora nada disso. Uma mulher com hbitos simples? De jeito algum. Uma mulher que o 
amava? Definitivamente, no. Bem, ela nunca admitira que o amava. O que era bom, pois, seno, observaria esse fato. O problema era que no conseguia esquecer. A 
risada gostosa. O sorriso. O brilho no olhar quando o encarava. 
    Sabia que devia deixar as lembranas para trs, mas, talvez, com sorte, poderia cavalgar, cavalgar e cavalgar, at ficar cansado demais para pensar. 
    Foi bom cavalgar. 
    Assim como trabalhar com afinco todos os dias, do nascer ao pr-do-sol. Sabia que os empregados da fazenda estavam curiosos com a atitude dele. At o capataz, 
que o conhecia bem e sabia que ele gostava de trabalhar nas atividades rotineiras da fazenda, comeou a olh-Io diferente. Ningum ousava perguntar nada, em parte 
porque ele era o patro, em parte porque, no Oeste,  os pensamentos de um homem eram s dele. 
    Por que fora ao casamento da menina Cooper? Por que sentara-se  mesa sete? Por que deixara Jack convenc-Io a ir  Gergia? 
    Porque era um idiota, eis por qu. David grunhiu e, continuando o trabalho, deu uma porretada num poste que sustentava a cerca. 
    - David? 
    Ele ergueu o olhar. O capataz estava  sua frente, as mos nos quadris. 
    - O qu? 
    - Telefone. E, se no tomar cuidado, vai cavar no prprio p. 
    David olhou para o buraco do poste e, ento, para a bota. 
    - No ando de bom humor ultimamente - disfarou. 
    - D para perceber. 
    -Bah. 
    O capataz sorriu e David devolveu a simpatia. 
    - Obrigado pelo recado. 
    David andou a passos largos na direo da casa. Assim que chegou assentiu  caseira e informou que atenderia na biblioteca. 
    - E bom ser importante, Jack. 
    - Mas  assim que se fala com os amigos? Como sabe que sou eu? 
    - Quem mais seria tonto o suficiente para me telefonar aqui? O que voc quer? Eu lhe disse, quando viajei, que ia ficar algumas semanas afastado. 
    - Eu sei, mas... Achei que iria gostar de ouvir o que tenho a dizer. 
    - Ouvir o qu? O nico caso que tenho em aberto  o de Palmer... 
    - No  sobre o escritrio, David.  sobre a Willingham. 
    - O que foi? Algum acidente? Ela... 
    - No, no, no  sobre ela.  No exatamente. ... que a investigao chegou. 
    - Que investigao? 
    - Aquela que pediu a Dan Nolan. Voc contratou-o para verificar a vida dela, lembra-se? 
    David fechou os olhos para aplacar a dor. 
    - Sim, eu me lembro. Oua, faa-me um favor, Jack. Queime. 
    - Bem, eu ia, David. Mas, ento, Dan telefonou e contou alguns fatos... 
    - Que fatos? 
    - Oua, acho que vai se interessar pelo que ele descobriu. 
    - Sim, bem, acho que no. Apenas pegue o relatrio e... 
    - Eu o enviei pela manh David. Pelo correio expresso. 
    David suspirou.  
    - No tem problema. Verificarei quando chegar. 
    O relatrio chegou na manh seguinte. David levou-o para a biblioteca com uma caneca de caf. Sentou-se  escrivaninha, inclinou a cadeira, elevou os ps e ficou 
olhando para a correspondncia. Ento, endireitou-se, tomou o caf e analisou o envelope. Era do tipo padro, igual a milhares de outros... 
    - Raios, Chambers, pare de se fazer de imbecil. Sem perder mais tempo, abriu-o. Havia uma pasta fina branca no interior. Junto, uma carta de Dan, mas ignorou-a. 
Olhou a pasta e respirou fundo. 
    A histria da vida de Stephanie. Poucas pginas, avaliou,  mas quantidade no era qualidade. 
    O sorriso saiu amargo. 
    Leia e coloque um fim nesse captulo de sua vida. Respirou fundo mais uma vez. 
    - E a verdade vai libert-lo - murmurou. Abriu a pasta. Uma hora depois, as pginas do relatrio estavam descartadas sobre a mesa. 
    - Oh, Scarlett - sussurrou. - Scarlett, meu amor... 
    Ao meio-dia, j fretara um jato para Willingham Corners, Gergia. O piloto, que ele conhecia havia algum tempo, tagarelava sobre as condies do tempo e a revoluo 
mundial em todos os campos, mas David s pensava em Stephanie, e em como a amava. 
    E em como falhara lamentavelmente com ela. 
    
    Sentada na pequena varanda da casa onde crescera, Stephanie descascava ervilhas. 
    Seria um dia de junho perfeito, se no estivesse to zangada. 
    - Idiota - murmurou, enquanto realizava a tarefa domstica. No estava apenas zangada. Estava furiosa consigo mesma. 
    Estava assim havia semanas. 
    Soprou uma mecha de cabelo da frente dos olhos e agarrou uma vagem. 
    Oh, perdera algum tempo chorando por ter perdido David, mas no muito. Por que deveria? No se podia perder o que nunca se possura, e ela nunca "possura" David 
de verdade. Ele era um mentiroso, uma farsa, um cafajeste, igual a todos os outros. 
    - A reencarnao de Avery - resmungou. 
    E pensar que imaginara-se fazendo amor com aquele rato. 
    E pensar que quisera casar-se com ele. Que dormira com ele! 
    Exceto que no dormira com ele. Fizera amor com ele, sim, e isso configurava muita diferena. Uma maravilhosa diferena. 
    - Bobagem - disse, reanimada. 
    Era mesmo bobagem. Estava vulnervel, s isso. David surgira num momento difcil de sua vida. Mas ele apenas fingira sentir ternura. 
    Era difcil acreditar que um homem podia usar esse artifcio para seduzir uma mulher, especialmente um homem como David. Sentiu um n na garganta. Tinha tanta 
certeza de que era de verdade. A gentileza. A decncia. A preocupao. 
    O amor. Oh, o amor de David. 
    - Pare com isso - censurou-se. 
    David era passado. O futuro... bem, no sabia como ele seria, mas j se delineava. Tudo estava melhorando. Paul, por exemplo. Ele estava melhor. Reagira bem 
aos novos medicamentos. E, um dia aps ela ter comparecido  clnica para explicar a situao desesperadora em que se encontrava, surgira uma proposta incrvel. 
Eles custeariam metade das despesas do tratamento de Paul, se ela concordasse em substituir a assistente administrativa do gerente, quando ela se aposentasse, em 
duas semanas. 
    Dessa forma, ali estava ela, muito tranqila em casa; prestes a comear, no novo emprego. Sim, a vida era boa. Era tima. Era... 
    - Scarlett? 
    Stephanie levantou-se, deixando cair a bacia com legumes. 
    Voltou-se, levou a mo ao peito, sabendo que s podia estar imaginando a voz de David. 
    Mas no estava. 
    - David - sussurrou. O que ele queria? 
    - Voce - respondeu ele, como se fosse telepata - Eu te amo, Scarlett. 
    - No. Por favor, no diga isso. 
    - Sei que no mereo outra chance. Falhei com voc, doura. Quando mais precisou de, mim, eu dei-lhe as costas. 
    - No. No, David. No posso... no posso suportar isso. 
    - Eu no confiei em voc. Eu sabia e convenci-me de que estava tudo bem, que um homem precisava ser idiota para confiar em uma mulher. Eu te amo. Eu quero que 
se case comigo. 
    Stephanie recuou um passo. 
    - Isso no  justo. Dizer isso levianamente. 
    - Eu sou advogado, Scarlett. Um advogado diria uma mentira? 
    - No  assim que sempre agem? 
    - Bem, sim. s vezes, acho, mas s por omisso. 
    - Voc mentiu. E no por omisso, Voc sabia o que estava fazendo. 
    - Tem razo. Eu menti, sim.  por isso que vim aqui para dizer a voc... - Ele aproximou-se. 
    - No faa... no faa isso - protestou ela, tentando desvencilhar-se. Mas ele no cedia. 
    - O que quer dizer com "por isso vim aqui?" 
    - Vim para dizer-lhe que menti sobre tudo, Scarlett. Sobre estar fingindo quando a pedi em casamento. 
    - No importa. Eu no teria... eu nunca quis... Por favor, David. No faa isso. 
    Ele inclinou-se e, beijou-a. 
    - Pare! Voc despedaou meu corao, David. No basta? Quer repetir a dose? 
    - Eu vim para dizer-lhe que a amo,  que sempre amei  e para implorar o seu perdo. 
    Stephanie fitou-o espantada. 
    - Eu te amo, Scarlett. Foi por isso que armei aquele esquema maluco sobre os motivos pelos quais deveramos nos casar. Eu tinha medo de contar-lhe a verdade. 
    - Medo? De qu? 
    - De me machucar. De ouvir voc dizer que no me amava. 
    - Oh, David. Eu te amo com todo o meu corao. Mas naquela noite,  o que voc disse. 
    David beijou-a. 
    - Mentiras. Eu a vi com outro homem e fiquei louco de cime. 
    - Era Paul. Meu irmo. 
    - Eu sei disso agora. 
    - Ele est doente h muitos anos, David. Desde que machucou  a cabea. Eu sei que deveria ter levado voc para conhec-Io. Eu queria, mas Paul... 
    David beijou-a novamente e manteve-a bem junto de si. 
    - No precisa explicar. Eu j sei de tudo, Scarlett. Incluindo o grande tolo que eu fui e, se me deixar, passarei o resto da vida provando-lhe que a adoro. Quer 
se casar comigo? 
    Stephanie abraou-o. 
    - Sim - concordou, os olhos brilhantes, e David ergueu-a nos braos e levou-a dali. 
    
    Casaram-se na fazenda, em Wyoming, num domingo ensolarado, dois meses depois. 
    Deveria ter sido antes, mas David levara algum tempo para obter a internao de Paul numa clnica em San Francisco especializada em problemas semelhantes aos 
dele. 
    - Paul dever estar em condies de comemorar conosco o nosso primeiro aniversrio de casamento - animara ele, confiante. 
    Na cerimnia, Stephanie usou um vestido de seda branco, com pequenas flores prateadas bordadas no corpete, e carregou um buqu delicado de orqudeas. David usou 
um terno  moda do Oeste, preto, com botas pretas. As convidadas suspiraram, comentando que nunca tinham visto um noivo mais lindo. 
    Ao final da festa, quando todos os convidados j haviam partido, David colocou Stephanie na sela de seu cavalo, vestida de noiva mesmo, e levou-a para as montanhas, 
para ver o pr-da-sol. 
    - Eu te amo, Scarlett. Stephanie sorriu, maravilhada, 
    - Eu te amo tambm, meu adorado esposo. 
    David beijou a noiva. Finalmente, sentia-se no lar. 
    
    FIM
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